Foi assim que se deu.
Surgiu do nada, sem ter nem porquê. Como uma flor noturna, simplesmente se abriu.
Ninguém viu a hora, o minuto ou o segundo em que aquilo tudo começou, mas eles sentiram. Ah! sentiram.
Uns dizem que o coração suspirou, mas não é verdade. Ele parou. Parou mesmo, paradinho, sequer ousou gemer e quando gemeu, gritou: tudum tudum tudum... e quem ouviu não escutou outra coisa.
Dava para ver o sangue latejando, a pele em brasa, as artérias desesperadas encharcando tudo sem irrigar absolutamente nada, nem mesmo o cérebro.Emburreceram, ambos.
Os únicos comandos, se alguém conseguiu perceber eram ordens químicas sem-sentido despejando hormônios e mais hormônios no organismo já destemperado.
Foi assim que ficaram, os dois, paralisados e bobos, sentindo a pele sanguínea, o frio na barriga, o anestésico sutil daquele olhar cruzado, daquele timbre de voz, daquela simetria absurda.
Bum! apaixonaram-se.
Pareceu até que já nasceram apaixonados. Melhor ainda, se apaixonaram em outra vida e reencontraram-se ali, naquela sala estranha, cercados de pessoas estranhas falando uma língua estranha. Estrangeiros do mundo. Amantes.
Homem, mulher, corpos, sexos: eram aquilo, a origem da espécie.
Mas eram, ainda, distantes. As palavras certas, as convenções, os códigos todos.
Uma palavra maquinada demorou a sair e sua trepidação denotou a verdade. Já sabiam.
Se quiseram intensamente e ninguém soube de nada, a não ser que tenham sentido a respiração vacilante, o coração disparado, o olhar curioso, os poros abertos e os pêlos eriçados.
A não ser que tenham percebido a alma tórrida e a paixão linfática.
segunda-feira, maio 17, 2004
terça-feira, maio 11, 2004
Guaraná em pó
Pizza do lado do mouse.
Vinho no lençol,
saca rolhas de ressaca
na sala.
e os olhos dela tão frios...
tem papel prá tudo quanto é canto,
encanto que se quebra nas horas,
palavra atrás de palavra,
fosfato atrás de fosfato
e o cursor na ainda segue piscando...
Os os olhos dela tão frios...
o rosto tão sério e tão certo,
a palavra tão curta e tão grossa,
a lembrança da raiva instantânea,
meia palavra, um terço de gesto
e meu humor do desencanto.
(just one word to say: f...)
Agora só esse ruído
e aquela luzinha verde...
O travesseiro ao pé da cama,
o lençol manchado caído,
jesus sofrendo na cruz
o computador grunhindo
incansável
e os olhos dela ali,
no meio daquele meu quarto
em um canto qualquer da memória,
perdidos no meio do caos,
é rosto de ganhar dinheiro,
sem sorriso nem simpatia,
é rosto que fecha questão,
são olhos de quem não vive.
O travesseiro embolado na cama
um canto, um drama
o cursor piscando,
A coca-cola ainda espumando.
e a cuca ali espiando,
a cuca que fica na estante,
na quinta prateleira,
abaixo do quincas borba,
ao lado do gato de botas,
dentro do Monteiro Lobato,
da capa desbeiçada e velha,
e os olhos dela tão frios...
da cuca...
mas não tenho mais medo,
meus olhos vermelhos me irritam,
passou o efeito,
foda-se, vou dormir,
amanhã eu termino .
essa droga de monografia.
Vinho no lençol,
saca rolhas de ressaca
na sala.
e os olhos dela tão frios...
tem papel prá tudo quanto é canto,
encanto que se quebra nas horas,
palavra atrás de palavra,
fosfato atrás de fosfato
e o cursor na ainda segue piscando...
Os os olhos dela tão frios...
o rosto tão sério e tão certo,
a palavra tão curta e tão grossa,
a lembrança da raiva instantânea,
meia palavra, um terço de gesto
e meu humor do desencanto.
(just one word to say: f...)
Agora só esse ruído
e aquela luzinha verde...
O travesseiro ao pé da cama,
o lençol manchado caído,
jesus sofrendo na cruz
o computador grunhindo
incansável
e os olhos dela ali,
no meio daquele meu quarto
em um canto qualquer da memória,
perdidos no meio do caos,
é rosto de ganhar dinheiro,
sem sorriso nem simpatia,
é rosto que fecha questão,
são olhos de quem não vive.
O travesseiro embolado na cama
um canto, um drama
o cursor piscando,
A coca-cola ainda espumando.
e a cuca ali espiando,
a cuca que fica na estante,
na quinta prateleira,
abaixo do quincas borba,
ao lado do gato de botas,
dentro do Monteiro Lobato,
da capa desbeiçada e velha,
e os olhos dela tão frios...
da cuca...
mas não tenho mais medo,
meus olhos vermelhos me irritam,
passou o efeito,
foda-se, vou dormir,
amanhã eu termino .
essa droga de monografia.
segunda-feira, abril 26, 2004
Lithium Ion
Para os celulares e computadores, íons lítio.
Máquinas fotográficas, gravadores, câmeras: Níkel-cádmio.
Telefones, energia elétrica.
Energia, água.
Papel, ávores.
Já repararam o quanto a memória da humanidade é vulnerável?
Somos uma civilização-detalhe no universo,
auto-predatória, paradoxal, gananciosa,
mas fadada ao esquecimento.
Não somos o máximo?
Hehe!
Máquinas fotográficas, gravadores, câmeras: Níkel-cádmio.
Telefones, energia elétrica.
Energia, água.
Papel, ávores.
Já repararam o quanto a memória da humanidade é vulnerável?
Somos uma civilização-detalhe no universo,
auto-predatória, paradoxal, gananciosa,
mas fadada ao esquecimento.
Não somos o máximo?
Hehe!
quinta-feira, abril 15, 2004
POESIA PARA VENDER EM SINAL
Você está em volta de mim e não quero te deixar passar.
Quero te pedir um cigarro,
perguntar as horas,
indicar uma vaga para o seu carro,
ainda que eu não fume,
tenha um relógio e,
efetivamente ache que seria melhor você deixar o carro em casa.
Eu só quero conversar.
Quero traduzir teu verbo e filtrar suas idéias,
entendê-las válidas, mas discordar,
ou simplesmente
não me manifestar.
Quero conhecer seus problemas e apesar de oferecer toda ajuda do mundo,
talvez não resolvê-los, mas mostrar-me solidário.
Quero não te incomodar quando perceber que você não está bem.
Só tenho vontade de te ouvir.
Quero te mostrar que estou vivo e que não sou indiferente a você,
quero respeitar seu caminho e abrir passagem, quando ele for de encontro ao meu.
Quero reconhecer suas virtudes saber meus defeitos e enfrentar nossa condição
tão demasiadamente humana.
Quero igualar você ao rico e ao pobre,
ao belo e ao feio, ao sujo e ao limpo.
ao magistrado e ao mendigo,
ao prefeito e ao lixeiro.
Quero que você me veja como gente,
Não quero nenhuma divisa entre nós.
Quero te falar do que importa,
comer torta,
quero falar da vidinha,
do nosso time,
do calor, da chuva, da falta de dinheiro,
ainda que não saiba nada do que estou falando,
Eu só quero te falar.
Eu só quero existir,
só quero viver,
só quero ser...
humano.
É isso aí, divulguem a paz, meus amigos, de qualquer maneira.
Quero te pedir um cigarro,
perguntar as horas,
indicar uma vaga para o seu carro,
ainda que eu não fume,
tenha um relógio e,
efetivamente ache que seria melhor você deixar o carro em casa.
Eu só quero conversar.
Quero traduzir teu verbo e filtrar suas idéias,
entendê-las válidas, mas discordar,
ou simplesmente
não me manifestar.
Quero conhecer seus problemas e apesar de oferecer toda ajuda do mundo,
talvez não resolvê-los, mas mostrar-me solidário.
Quero não te incomodar quando perceber que você não está bem.
Só tenho vontade de te ouvir.
Quero te mostrar que estou vivo e que não sou indiferente a você,
quero respeitar seu caminho e abrir passagem, quando ele for de encontro ao meu.
Quero reconhecer suas virtudes saber meus defeitos e enfrentar nossa condição
tão demasiadamente humana.
Quero igualar você ao rico e ao pobre,
ao belo e ao feio, ao sujo e ao limpo.
ao magistrado e ao mendigo,
ao prefeito e ao lixeiro.
Quero que você me veja como gente,
Não quero nenhuma divisa entre nós.
Quero te falar do que importa,
comer torta,
quero falar da vidinha,
do nosso time,
do calor, da chuva, da falta de dinheiro,
ainda que não saiba nada do que estou falando,
Eu só quero te falar.
Eu só quero existir,
só quero viver,
só quero ser...
humano.
É isso aí, divulguem a paz, meus amigos, de qualquer maneira.
segunda-feira, abril 12, 2004
Fazenda
São tantas as cenas que assaltam meus sentidos, e tão impressionantes que sinto obstinação em assegurar que a memória registre cada detalhe e cada cena.
Um bosque ao entardecer, com passaros anunciando a fuga do sol, guardando uma paz mágica a uma temperatura perfeita. Três cavalos correndo pelo pasto, um deles dominando os demais, resfolegando, batendo os cascos e erguendo a cabeça, impondo o medo de forma encantadora. Uma gata caçando mariposas, libertando toda a selvageria e malícia do espírito felino. Formigas labutando severamente. Um besouro desnorteado em busca de luz, voando suicida em direção ao fogo.
São tantos os quadros e tão complexos que temo ser infinita a sua descrição, e de tão infinita, inútil.
Acima de tudo isso, um céu como não se vê na cidade, e nele, indícios de uma infinitude ainda maior. Um destempero de astros, sóis, galáxias. Os constantes movimentos da luz, raiz absurda da nossa maior ilusão: o tempo.
Pensar em tudo isso é inquietante, quando não desesperador.
Por isso me sento no bosque, contemplo os cavalos, a gata, as formigas, o besouro. Nestas horas só me concentro em uma coisa: esquecer do tempo e deixar que a vida passe mais suavemente por mima. Permitir, por um só instante, que o infinito seja isso.
Um bosque ao entardecer, com passaros anunciando a fuga do sol, guardando uma paz mágica a uma temperatura perfeita. Três cavalos correndo pelo pasto, um deles dominando os demais, resfolegando, batendo os cascos e erguendo a cabeça, impondo o medo de forma encantadora. Uma gata caçando mariposas, libertando toda a selvageria e malícia do espírito felino. Formigas labutando severamente. Um besouro desnorteado em busca de luz, voando suicida em direção ao fogo.
São tantos os quadros e tão complexos que temo ser infinita a sua descrição, e de tão infinita, inútil.
Acima de tudo isso, um céu como não se vê na cidade, e nele, indícios de uma infinitude ainda maior. Um destempero de astros, sóis, galáxias. Os constantes movimentos da luz, raiz absurda da nossa maior ilusão: o tempo.
Pensar em tudo isso é inquietante, quando não desesperador.
Por isso me sento no bosque, contemplo os cavalos, a gata, as formigas, o besouro. Nestas horas só me concentro em uma coisa: esquecer do tempo e deixar que a vida passe mais suavemente por mima. Permitir, por um só instante, que o infinito seja isso.
segunda-feira, abril 05, 2004
amor próprio
Não falo dez línguas, não estudo teologia, não salvo baleias, não trabalho em uma instituição de caridade, não jogo futebol, não trabalho na bolsa. Não fiquei rico aos vinte e cinco, não salvei uma criança dos escombros do WTC, não fui campeão brasileiro de Ginástica Olímpica, não sou o primeiro da turma, mas uma coisa amo em mim:
Eu detesto mac donalds!!!
Eu detesto mac donalds!!!
quinta-feira, janeiro 15, 2004
Quando virão aqueles dias?
Meu pensamento é cíclico, viciado.
A grande tortura da minha adolescência é o que hoje ainda me incomoda: Deus.
Nunca fui capaz de assimilar completamente os dogmas de religião. Não me interessava religião, não me interessavam rituais, não me interessavam quaisquer adornos daquela palavra tão estranha, tão misteriosa, tão carregada de sentido: DEUS.
Afinal, o que é Deus?
Será esta força que nos põe em contato uns com os outros? esta indiscutível troca de energias que acontece na convivência humana?
Desconfio que Deus seja isso: amor etéreo. Se assim for, o que fizemos em sociedade senão condicionar o amor, relativizar a fraternidade e a igualdade? enfim, será que estamos matando Deus?
Informo a todos que estou impossibilitado de acessar o blog. Obrigado aos meus leitores, agradeço a atenção e as visitas e informo que meu e-mail é uridutra@yahoo.com, caso queiram entrar em contato.
Descubram Deus.
A grande tortura da minha adolescência é o que hoje ainda me incomoda: Deus.
Nunca fui capaz de assimilar completamente os dogmas de religião. Não me interessava religião, não me interessavam rituais, não me interessavam quaisquer adornos daquela palavra tão estranha, tão misteriosa, tão carregada de sentido: DEUS.
Afinal, o que é Deus?
Será esta força que nos põe em contato uns com os outros? esta indiscutível troca de energias que acontece na convivência humana?
Desconfio que Deus seja isso: amor etéreo. Se assim for, o que fizemos em sociedade senão condicionar o amor, relativizar a fraternidade e a igualdade? enfim, será que estamos matando Deus?
Informo a todos que estou impossibilitado de acessar o blog. Obrigado aos meus leitores, agradeço a atenção e as visitas e informo que meu e-mail é uridutra@yahoo.com, caso queiram entrar em contato.
Descubram Deus.
sexta-feira, janeiro 09, 2004
Terra seca, sementes velhas.
Toda noite tinha um sonho, o mesmo sonho.
Batia léguas até desandar num emaranhado de pano, linha e pau. Uma rede estranha trançada com linhão e fita vermelha, agarrado em taliscas de um limoeiro seco. Um pau espinhento, como que agourando qualquer coisa em volta.
Era só ele ali, só ele se prendia à rede, aos espinhos, ao pau e à terra.
Só restara ele, é verdade. Dos sabidos e dos bestas, das meninas e dos machos, dos fortes e dos fracos, dos doze filhos de seu Sebastião e dona Flora, dos que morreram matado e nascido, dos sete que restaram, somente ele. Prá cuidar das terras, plantar maniva e caiar a casa. Prá pegar, na cidade, a "aposentação" dos velhos, carrear os bodes prá feira, cuidar da farinha e fumar na porta da casa, vendo o sol se ir numa tarde amena, depois de ter castigado a terra dura e acochado as raízes das plantas.
Sabia que o sonho sempe começava com ele saindo em busca do Jequitinhonha, légua e meia da casinha velha, com vara, anzol e balde. O céu então ficava cinza da cor dos lajedos e no nem-tarde-nem-noite de chuva, sua visão se turvava, era então que o vulto aparecia de longe e, se tornava o único ponto visível, o único rumo lógico. Eram os panos balançando no vento de chuva, era a teia de pano-de-saco-de-farinha embandeirando a galhada seca no pleno sertão sedento.
Era ele preso ali, era ele compreendendo que sua vida ia embora, seus braços e pernas atrelados ao mal-agouro daquela planta morta e má. Sentia que eram suas as raízes encravadas na terra e que era ele próprio quem estava cheio de espinhos e o mesmo ele quem mau-olhava e prendia qualquer esperança de ser linha, e trançar qualquer destino, de ser pano e revoar com a ventania.
Batia léguas até desandar num emaranhado de pano, linha e pau. Uma rede estranha trançada com linhão e fita vermelha, agarrado em taliscas de um limoeiro seco. Um pau espinhento, como que agourando qualquer coisa em volta.
Era só ele ali, só ele se prendia à rede, aos espinhos, ao pau e à terra.
Só restara ele, é verdade. Dos sabidos e dos bestas, das meninas e dos machos, dos fortes e dos fracos, dos doze filhos de seu Sebastião e dona Flora, dos que morreram matado e nascido, dos sete que restaram, somente ele. Prá cuidar das terras, plantar maniva e caiar a casa. Prá pegar, na cidade, a "aposentação" dos velhos, carrear os bodes prá feira, cuidar da farinha e fumar na porta da casa, vendo o sol se ir numa tarde amena, depois de ter castigado a terra dura e acochado as raízes das plantas.
Sabia que o sonho sempe começava com ele saindo em busca do Jequitinhonha, légua e meia da casinha velha, com vara, anzol e balde. O céu então ficava cinza da cor dos lajedos e no nem-tarde-nem-noite de chuva, sua visão se turvava, era então que o vulto aparecia de longe e, se tornava o único ponto visível, o único rumo lógico. Eram os panos balançando no vento de chuva, era a teia de pano-de-saco-de-farinha embandeirando a galhada seca no pleno sertão sedento.
Era ele preso ali, era ele compreendendo que sua vida ia embora, seus braços e pernas atrelados ao mal-agouro daquela planta morta e má. Sentia que eram suas as raízes encravadas na terra e que era ele próprio quem estava cheio de espinhos e o mesmo ele quem mau-olhava e prendia qualquer esperança de ser linha, e trançar qualquer destino, de ser pano e revoar com a ventania.
sexta-feira, dezembro 19, 2003
Plágio de Jorge Amado
SANGUE E AMOR NA BARRA DO MAR
A Rua fedia mais que que as tripas de peixe esparramadas na barra, putrefazendo-se ao luar. Noite alta.
Nada de peixes nas bancas nem homens gritando barganhas. Nada de mulheres comprando, negros zoando e desejando as coxas e bundas grandes das mucamas... nada, só as marolas preguiçosas lavando a beira do cais e, lá longe, ondas de maré cheia estrondando nos corais.
O mercado era triste à noite.
Ainda assim, fedorento e amaldiçoado, o porto era vivo e o luar do cais era o mais lindo da Bahia, como se a lua fosse puta fina a que o cais sujo fizesse jus, por pura paixão. Os pescadores sabiam disso, e não trocavam as proas dos saveiros nas noites de amor.
O ar salgado e o cheiro forte provocam um sensação estranha, entre a repugnância e o instinto. A vida era aquilo: forte, doce, salgada e incômoda.
Negro Sávio sentiu amargar na garganta um soluço retido. Noite de lua cheia era difícil segurar a lembrança, e o choro vinha com tudo.
Firmou o encordoamento do mastro e reteve, mais uma vez, seus músculos travados no repuxo da corda, como se prolongar o esforço aliviasse a alma dolorida. Soltou, estava firme, não havia mais nada o que fazer no barco, não havia mais carga para descer, nem amarras nem nada, o barco já descansava, sonolento no balanço da barra. Sobrara ele, a lua e a tristeza.
Luana vira Sávio atracar no porto. Todos os dias corria os olhos buscando o saveiro vermelho, porque sabia que aquele barco fora pintado assim em homenagem ao sangue derramado na peleja com o rival e a esposa traidora, a paixão que traíra o mais forte dos marinheiros, que amargurava o coração do mais nobre dos homens. Reza a lenda que sávio usou o próprio sangue para pintar o barco, o sangue que correra do único golpe bem sucedido do seu oponente na luta em que perdeu a vida.
Sávio era lenda e luana gostava das lendas.
Pulou a janela sem saber de onde havia tirado coragem. Que se danasse seus pais, queria mesmo era ver o Negro Sávio.
Desceu ao porto, o vestido brincando com o vento, os olhos esbugalhados de adrenalina.
Sávio a viu de longe, estava acostumado a ver corais e tempestades no mar. Mas não era coral nem tempestade, era brisa, era a filha de João de Olegário. Estranhou a menina na rua, em plena hora da esbórnia, dos cachaceiros e das messalinas.
Luana parou de longe, namorando o vulto de Sávio com seus músculos reluzindo a lua, trepado no barco, uma lenda viva, o netuno do cais do porto.
Sávio gritou para saber o que era, se era emergência, se o pai dela estava bem. Com o coração aos pulos ela paralisou, não sabia que estava sendo vista. Mas respondeu. Aproximou-se, o negro sem entender o porque, sentiu um calafriu na espinha com aquela voz, a menina estava linda e brilhava o viço da puberdade.
Sem uma palavra e com o coração aos saltos, luana se aproximou. Apontou a pintura do barco e perguntou a Sávio:
- É verdade?
Sávio sabia o que ela queria dizer, e a amargura das lembranças passou correndo de volta pelos seus olhos.
-Foi!
A taquicardia aumentou enquanto se aproximava, ficou na ponta dos pés e sentiu o calor do negro... seu corpo reagiu de imediato. Levantou a mão direita e acariciou o rosto do homem.
Entre lágrimas e palpitações, amaram-se na madrugada, sobre a proa de um passado indiferente... e a lua os acompanhou.
A Rua fedia mais que que as tripas de peixe esparramadas na barra, putrefazendo-se ao luar. Noite alta.
Nada de peixes nas bancas nem homens gritando barganhas. Nada de mulheres comprando, negros zoando e desejando as coxas e bundas grandes das mucamas... nada, só as marolas preguiçosas lavando a beira do cais e, lá longe, ondas de maré cheia estrondando nos corais.
O mercado era triste à noite.
Ainda assim, fedorento e amaldiçoado, o porto era vivo e o luar do cais era o mais lindo da Bahia, como se a lua fosse puta fina a que o cais sujo fizesse jus, por pura paixão. Os pescadores sabiam disso, e não trocavam as proas dos saveiros nas noites de amor.
O ar salgado e o cheiro forte provocam um sensação estranha, entre a repugnância e o instinto. A vida era aquilo: forte, doce, salgada e incômoda.
Negro Sávio sentiu amargar na garganta um soluço retido. Noite de lua cheia era difícil segurar a lembrança, e o choro vinha com tudo.
Firmou o encordoamento do mastro e reteve, mais uma vez, seus músculos travados no repuxo da corda, como se prolongar o esforço aliviasse a alma dolorida. Soltou, estava firme, não havia mais nada o que fazer no barco, não havia mais carga para descer, nem amarras nem nada, o barco já descansava, sonolento no balanço da barra. Sobrara ele, a lua e a tristeza.
Luana vira Sávio atracar no porto. Todos os dias corria os olhos buscando o saveiro vermelho, porque sabia que aquele barco fora pintado assim em homenagem ao sangue derramado na peleja com o rival e a esposa traidora, a paixão que traíra o mais forte dos marinheiros, que amargurava o coração do mais nobre dos homens. Reza a lenda que sávio usou o próprio sangue para pintar o barco, o sangue que correra do único golpe bem sucedido do seu oponente na luta em que perdeu a vida.
Sávio era lenda e luana gostava das lendas.
Pulou a janela sem saber de onde havia tirado coragem. Que se danasse seus pais, queria mesmo era ver o Negro Sávio.
Desceu ao porto, o vestido brincando com o vento, os olhos esbugalhados de adrenalina.
Sávio a viu de longe, estava acostumado a ver corais e tempestades no mar. Mas não era coral nem tempestade, era brisa, era a filha de João de Olegário. Estranhou a menina na rua, em plena hora da esbórnia, dos cachaceiros e das messalinas.
Luana parou de longe, namorando o vulto de Sávio com seus músculos reluzindo a lua, trepado no barco, uma lenda viva, o netuno do cais do porto.
Sávio gritou para saber o que era, se era emergência, se o pai dela estava bem. Com o coração aos pulos ela paralisou, não sabia que estava sendo vista. Mas respondeu. Aproximou-se, o negro sem entender o porque, sentiu um calafriu na espinha com aquela voz, a menina estava linda e brilhava o viço da puberdade.
Sem uma palavra e com o coração aos saltos, luana se aproximou. Apontou a pintura do barco e perguntou a Sávio:
- É verdade?
Sávio sabia o que ela queria dizer, e a amargura das lembranças passou correndo de volta pelos seus olhos.
-Foi!
A taquicardia aumentou enquanto se aproximava, ficou na ponta dos pés e sentiu o calor do negro... seu corpo reagiu de imediato. Levantou a mão direita e acariciou o rosto do homem.
Entre lágrimas e palpitações, amaram-se na madrugada, sobre a proa de um passado indiferente... e a lua os acompanhou.
sexta-feira, dezembro 05, 2003
Duas crônicas em dez minutos
"Bilhões e Bilhões"
Uma correntenza infindável de anônimos. Bilhões e bilhões.
A humanidade é numérica, coletiva, impalpável. Os indivíduos adormecem no leito da multidão.
Cada olhar um pensamento, centenas de frases soltas, vidas, dor, alegria, tudo absorvido pela enorme maré humana, tudo transformado em um ruído único e constante, tudo convertido em decibéis e misturado ao som das máquinas, motor de carro, compactadeira, freio de ônibus.
Cada alma uma vida, mas toda vida alimentando a necessidade coletiva de fluir.
Até que algo aconteça.
De repente, bum! Acontece.
freios, gritos, pânico! sacolas no chão, sangue no asfalto.
Eis que da angústia, renascem os seres humanos: Puros, sensáveis à dor. E então brotam os indivíduos, da necessidade de compartilhar a vida.
E o coletivo ganha outra dimensão.
Adoro andar pelo centro da cidade.
Pele
Levanvantou-se do nada, tão decidido que empurrou a cadeira de rodinhas que saiu girando por uns bons centímetros.
Baixou a cabeça mas não o olhar. Não se sentia mais um idiota naquele terno. Era ele e mais nada.
Caminhou até a mesa dela e cada passo era uma libertação. Seus olhos faiscavam e eram pura insensatez.
Ela ergueu a cabeça, esboçou o sorriso usual e já ia voltar ao trabalho quando percebeu que ele estava vinha para si e estava diferente, avançava em sua direção. Sem desvios, sem paradas, como se não existisse mais ninguém ali. O que seria? o que ele queria?
Passou pela mesa dela, com os olhos fixos nos seus degustou por meio segundo aquele ohar de dúvida. Fez sinal com a mão para que ela o seguisse.
Olhou para os lados buscando entender, não havia explicação, não havia motivos. Todos trabalhavam e não havia testemunhas para aquela aberração da rotina. Ficou inerte por mais meio segundo, mas a urgente curiosidade a acordou do choque.
Quando virou-se, ele já avançava pela sala. Uma mão no bolso da calça, a outra, livre, preparava-se para empurrar a porta da salinha de reuniões. Estranho, ele parecia muito à vontade. Ela naquela situação totalmente esatranha, e ele tranquilo.
Apertou o passo e, enfim, entrou na sala. Ele encostado na parede, de braços cruzados e olhos voltados para ela, sério.
Pensou em perguntar alguma coisa para normalizar a situação, mas ele não permitiu:
_Feche a porta!
_Como assim? e tentou refazer o ar de dúvida para desfazer o medo da situação. No fundo, já sabia o que ele queria. E seu olhar era tão firme, tão forte. Tentou dissimular.
Avançou na direção dela, enfiou as mãos nos bolsos e fez cara de ironia para confrontar a sua dissimulação.
Não conseguia de nenhum modo recuperar a compostura, não sabia qual "tipo"deveria fazer naquele momento, sentiu-se totalmente transparente e por isso irritou-se.
_Eu disse para você fechar essa porta e deixar lá fora esse seu joguinho.
Agora desconcertou-se totalmente, e, embora aquele momento requeresse indignação, não conseguiu esboçar qualquer palavra:
_Mas, mas... o quê?
_Todo gesto seu é uma dança para seduzir meus olhos, toda frase sua é uma deixa para eu me perder ou me torturar, todo movimento de sua boca imita um beijo e você sabe que penso em beijá-la. Isso tudo é quase imperceptível... mas eu vejo.
O que você nâo quer que eu veja é que isso é de propósito para a sua diversão, mas eu já sei.
Só não consigo saber o que você quer, mas aqui estou, a meu modo, sem dissimulaçãos, dizendo o que eu quero... e eu quero você.
Empalideceu de vez, o raciocínio quase parou. Que droga! o idiota conseguiu desconcertá-la de verdade.
Não havia saída, não havia testemunhas, não havia como resgatar o controle da situação.
Virou-se de uma vez, decidida a sair ou gritar, mas... parou. Os olhos estavam tão certos, tão instintivos, provocantes...
Virou-se novamente para ele e, suavemente, fechou a porta, aproveitou este movimento para resgatar o auto-controle.
Antes de cerrar os olhos, sentiu o braço dele envolver sua cintura... e a pele fritando.
Uma correntenza infindável de anônimos. Bilhões e bilhões.
A humanidade é numérica, coletiva, impalpável. Os indivíduos adormecem no leito da multidão.
Cada olhar um pensamento, centenas de frases soltas, vidas, dor, alegria, tudo absorvido pela enorme maré humana, tudo transformado em um ruído único e constante, tudo convertido em decibéis e misturado ao som das máquinas, motor de carro, compactadeira, freio de ônibus.
Cada alma uma vida, mas toda vida alimentando a necessidade coletiva de fluir.
Até que algo aconteça.
De repente, bum! Acontece.
freios, gritos, pânico! sacolas no chão, sangue no asfalto.
Eis que da angústia, renascem os seres humanos: Puros, sensáveis à dor. E então brotam os indivíduos, da necessidade de compartilhar a vida.
E o coletivo ganha outra dimensão.
Adoro andar pelo centro da cidade.
Pele
Levanvantou-se do nada, tão decidido que empurrou a cadeira de rodinhas que saiu girando por uns bons centímetros.
Baixou a cabeça mas não o olhar. Não se sentia mais um idiota naquele terno. Era ele e mais nada.
Caminhou até a mesa dela e cada passo era uma libertação. Seus olhos faiscavam e eram pura insensatez.
Ela ergueu a cabeça, esboçou o sorriso usual e já ia voltar ao trabalho quando percebeu que ele estava vinha para si e estava diferente, avançava em sua direção. Sem desvios, sem paradas, como se não existisse mais ninguém ali. O que seria? o que ele queria?
Passou pela mesa dela, com os olhos fixos nos seus degustou por meio segundo aquele ohar de dúvida. Fez sinal com a mão para que ela o seguisse.
Olhou para os lados buscando entender, não havia explicação, não havia motivos. Todos trabalhavam e não havia testemunhas para aquela aberração da rotina. Ficou inerte por mais meio segundo, mas a urgente curiosidade a acordou do choque.
Quando virou-se, ele já avançava pela sala. Uma mão no bolso da calça, a outra, livre, preparava-se para empurrar a porta da salinha de reuniões. Estranho, ele parecia muito à vontade. Ela naquela situação totalmente esatranha, e ele tranquilo.
Apertou o passo e, enfim, entrou na sala. Ele encostado na parede, de braços cruzados e olhos voltados para ela, sério.
Pensou em perguntar alguma coisa para normalizar a situação, mas ele não permitiu:
_Feche a porta!
_Como assim? e tentou refazer o ar de dúvida para desfazer o medo da situação. No fundo, já sabia o que ele queria. E seu olhar era tão firme, tão forte. Tentou dissimular.
Avançou na direção dela, enfiou as mãos nos bolsos e fez cara de ironia para confrontar a sua dissimulação.
Não conseguia de nenhum modo recuperar a compostura, não sabia qual "tipo"deveria fazer naquele momento, sentiu-se totalmente transparente e por isso irritou-se.
_Eu disse para você fechar essa porta e deixar lá fora esse seu joguinho.
Agora desconcertou-se totalmente, e, embora aquele momento requeresse indignação, não conseguiu esboçar qualquer palavra:
_Mas, mas... o quê?
_Todo gesto seu é uma dança para seduzir meus olhos, toda frase sua é uma deixa para eu me perder ou me torturar, todo movimento de sua boca imita um beijo e você sabe que penso em beijá-la. Isso tudo é quase imperceptível... mas eu vejo.
O que você nâo quer que eu veja é que isso é de propósito para a sua diversão, mas eu já sei.
Só não consigo saber o que você quer, mas aqui estou, a meu modo, sem dissimulaçãos, dizendo o que eu quero... e eu quero você.
Empalideceu de vez, o raciocínio quase parou. Que droga! o idiota conseguiu desconcertá-la de verdade.
Não havia saída, não havia testemunhas, não havia como resgatar o controle da situação.
Virou-se de uma vez, decidida a sair ou gritar, mas... parou. Os olhos estavam tão certos, tão instintivos, provocantes...
Virou-se novamente para ele e, suavemente, fechou a porta, aproveitou este movimento para resgatar o auto-controle.
Antes de cerrar os olhos, sentiu o braço dele envolver sua cintura... e a pele fritando.
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