Me perguntaram porque calei a poesia.
Se havia enjoado de sambinha, de Vinícius, de Betânia e de todas aquelas vozes das quais sempre fui arauto. Se havia me cansado daquelas palavras que entoava com tanta fé e tanta intimidade que era como se advogasse pelos poetas perante Deus.
Me perguntaram, enfim, se eu havia perdido a fé na paixão.
Estão incomodados comigo, como fazem as pessoas diante de alguém que abandona tudo aquilo que lhe é peculiar e íntimo. Como uma criança indiferente a um doce ou um velho que admira suas saudades com contemplação silenciosa e inerte.
Eu digo.
É que quando escuto um samba bonito, quando vinícius fala baixinho que "o amor é um espinho que não se vê em cada flor"; quando ele fala sobre saudade, quando ouço a profundidade de um bolero na voz de Bethânia; quando leio Neruda, Drummond, Quintana, quando mergulho em palavras com esses velhos investigadores da profundeza da paixão carnal, tudo aflora e tudo dói.
É que enquanto cantava e repetia aquelas profecias de amor e paixão, o que eu queria, acima de tudo, era entender o que se continha naquelas palavras.
Eu vivi a paixão, eu vivi o amor e a minha miséria, agora, foi ter perdido tudo isso.
E hoje, tenho medo de cantar e chorar.
Se tentar escrever, é capaz que o coração se rasgue e minha alma derrame em preto e branco.
Aí então os amigos me dariam tapinhas nas costas com aqueles inúteis olhares de piedade; os impacientes virariam as costas com desprezo e os críticos me chamariam de meloso e repetitivo. E dessa forma, aquelas palavras que retratariam a minha própria essência desnuda estariam assim, expostas ao mundo, ridicularizadas.
E ninguém, por fim, teria curado a ferida que haveria aberto.
Por isso calo as palavras e contemplo a passagem do tempo para que a dor se vá.
Por isso tenho sido o inverso de mim.
quarta-feira, fevereiro 22, 2006
quinta-feira, fevereiro 16, 2006
O Filho
Já haviam se passado dez anos desde os longínquos dezenove em que se apaixonou perdidamente e foi traído.
Era tempo suficiente para esquecer, mas nada foi esquecido.
Nem a traição, nem a loucura, nem os olhos, nem braços, nem a pele, nem a voz, nem o chiclete que ela não cansava de estalar com língua.
Em dez anos, nada se perdeu em sua memória. Não se descoloriram os lábios irrigados a sangue nem os olhos marinhos brilhando; não se desfez o calor da pele nem o eriçamento dos pêlos. Até o cheiro daqueles momentos lhe chegaria ao olfato se aspirasse as memórias. Se cerrasse os olhos, a sentiria nos braços, naquela adolescência louca, naquela efervecência, naquela loucura regada a perfeição, naquilo que, para ambos, era algo novo: a paixão.
Foi a primeira vez que caiu pela paixão. Foi quando descobriu a delícia da adrenalina do amor extremo e corpóreo.
Caiu, perdeu-se.
Foi traído em plena cidade, no mesmo palco daqueles momentos mágicos, viu o cenário trocado e a atriz encarnando uma outra personagem.
A mulher que ora via travestida pela vaidade, forjada a ouro pedras e perfumes e de mãos dadas com o intruso anti-herói.
A linda mulher que via, assombrosamente sedutora, não tinha os mesmos olhos de antes, mas o olhou com um lapso de verdade, em uma fração de segundos.
E ele viu seu último olhar. Era distante, estranho, covarde.
Desandou cidade abaixo. Esqueceu-se de fechar a boca, cerrar os olhos e respirar. As pernas trêmulas abriram caminho onde os olhos não enxergavam, paralisados que estavam, atônitos que estavam, chocados, surrados.
Perdeu o chão procurando ar. Perdeu a vida pela primeira vez.
Dez anos passados e ainda não entendia o que fazia quando passava de carro diante do portão daquela casa que era dela, na velha cidade dos dois.
Não era algo voluntário. Saia de carro e sempre acabava passando pela rua dela. Acelerava quando passava enfrente ao muro em que aprenderam a se apaixonar.
Por todo aquele tempo, havia fugido dela. Ignorou todas as cartas, irritou-se com todos os recados, desligou o telefone, fugiu, fugiu, e, no entanto, quando visitava a cidade, via-se perdido, sozinho, dirigindo hipnoticamente pela rua em que ela morava.
Sempre se perguntava o que aconteceria se, de repente, a visse. Planejava ignorá-la, às vezes pensava em fingir normalidade, perguntá-la sobre a vida, os planos.
A única coisa que não conseguia fazer era não pensar nela.
Até aquela noite, na praça, quando uma criança de uns 9 anos fisgou sua atenção por um motivo que desconhecia. Uma familiaridade estranha nos olhos, um "qualquer coisa" no sorriso daquele menino, uma identidade no jeito, nos cabelos encaracolados. Não soube compreender a razão que o levou a acompanhar aquele menino com os olhos.
Até que o menino correu e puxou os braços de uma mulher...que se virou...que conversou com a criança...que levantou o rosto...que o olhou nos olhos, que ficou pálida e que depois corou. Era ela.
Sentiu o incendio no rosto. Seu coração falhou uma batida e seus pensamentos pararam. Não houve uma fagulha de razão naquela conexão de olhares. Era o olhar de uma alma a outra. Os dois se viam por dentro, desarmados de qualquer artifício e despidos do tempo que os havia separado.
Os mais atentos puderam ouvir os corações batendo, sentiram o súbito afeto que ele teve pela criança, perceberam a temperatura do ar que exalavam dos pulmões, quando, finalmente, ousaram respirar.
Outra vez atônito, cambaleou cidade abaixo, até que a ouviu aproximar-se. Os passos dela correndo na calçada.
Parou, virou-se.
Ela usava uma blusa vermelha. Ele viu seus seios maiores, ele viu seu rosto mais sério, ele viu seus olhos chorando, mas também viu a mesma beleza e sentiu a mesma loucura.
Seus corpos ordenaram tudo. A magia que fluiu naquele instante coordenou os passos de ambos que se abraçaram como velhos parceiros de dança em uma valsa harmônica e suave.
Mas o abraço foi forte, e o beijo sôfrego.
Ela envolveu seu rosto com as mãos e o beijou com a saliva temperada por lágrimas.
Beijaram-se reatando as pontas do tempo. Afagaram-se entre a ânsia e o carinho, esfregando-se, apertando-se, beijando os olhos, a testa, emaranhando os cabelos nas mãos, puxando-se para mais perto, para dentro.
E ficaram assim, na calçada, até que seus olhos pararam novamente, um dentro do outro. Ela soluçava e assentia com a cabeça. Não houve palavra, mas seu coração já sabia.Aquele menino era seu filho.
Era tempo suficiente para esquecer, mas nada foi esquecido.
Nem a traição, nem a loucura, nem os olhos, nem braços, nem a pele, nem a voz, nem o chiclete que ela não cansava de estalar com língua.
Em dez anos, nada se perdeu em sua memória. Não se descoloriram os lábios irrigados a sangue nem os olhos marinhos brilhando; não se desfez o calor da pele nem o eriçamento dos pêlos. Até o cheiro daqueles momentos lhe chegaria ao olfato se aspirasse as memórias. Se cerrasse os olhos, a sentiria nos braços, naquela adolescência louca, naquela efervecência, naquela loucura regada a perfeição, naquilo que, para ambos, era algo novo: a paixão.
Foi a primeira vez que caiu pela paixão. Foi quando descobriu a delícia da adrenalina do amor extremo e corpóreo.
Caiu, perdeu-se.
Foi traído em plena cidade, no mesmo palco daqueles momentos mágicos, viu o cenário trocado e a atriz encarnando uma outra personagem.
A mulher que ora via travestida pela vaidade, forjada a ouro pedras e perfumes e de mãos dadas com o intruso anti-herói.
A linda mulher que via, assombrosamente sedutora, não tinha os mesmos olhos de antes, mas o olhou com um lapso de verdade, em uma fração de segundos.
E ele viu seu último olhar. Era distante, estranho, covarde.
Desandou cidade abaixo. Esqueceu-se de fechar a boca, cerrar os olhos e respirar. As pernas trêmulas abriram caminho onde os olhos não enxergavam, paralisados que estavam, atônitos que estavam, chocados, surrados.
Perdeu o chão procurando ar. Perdeu a vida pela primeira vez.
Dez anos passados e ainda não entendia o que fazia quando passava de carro diante do portão daquela casa que era dela, na velha cidade dos dois.
Não era algo voluntário. Saia de carro e sempre acabava passando pela rua dela. Acelerava quando passava enfrente ao muro em que aprenderam a se apaixonar.
Por todo aquele tempo, havia fugido dela. Ignorou todas as cartas, irritou-se com todos os recados, desligou o telefone, fugiu, fugiu, e, no entanto, quando visitava a cidade, via-se perdido, sozinho, dirigindo hipnoticamente pela rua em que ela morava.
Sempre se perguntava o que aconteceria se, de repente, a visse. Planejava ignorá-la, às vezes pensava em fingir normalidade, perguntá-la sobre a vida, os planos.
A única coisa que não conseguia fazer era não pensar nela.
Até aquela noite, na praça, quando uma criança de uns 9 anos fisgou sua atenção por um motivo que desconhecia. Uma familiaridade estranha nos olhos, um "qualquer coisa" no sorriso daquele menino, uma identidade no jeito, nos cabelos encaracolados. Não soube compreender a razão que o levou a acompanhar aquele menino com os olhos.
Até que o menino correu e puxou os braços de uma mulher...que se virou...que conversou com a criança...que levantou o rosto...que o olhou nos olhos, que ficou pálida e que depois corou. Era ela.
Sentiu o incendio no rosto. Seu coração falhou uma batida e seus pensamentos pararam. Não houve uma fagulha de razão naquela conexão de olhares. Era o olhar de uma alma a outra. Os dois se viam por dentro, desarmados de qualquer artifício e despidos do tempo que os havia separado.
Os mais atentos puderam ouvir os corações batendo, sentiram o súbito afeto que ele teve pela criança, perceberam a temperatura do ar que exalavam dos pulmões, quando, finalmente, ousaram respirar.
Outra vez atônito, cambaleou cidade abaixo, até que a ouviu aproximar-se. Os passos dela correndo na calçada.
Parou, virou-se.
Ela usava uma blusa vermelha. Ele viu seus seios maiores, ele viu seu rosto mais sério, ele viu seus olhos chorando, mas também viu a mesma beleza e sentiu a mesma loucura.
Seus corpos ordenaram tudo. A magia que fluiu naquele instante coordenou os passos de ambos que se abraçaram como velhos parceiros de dança em uma valsa harmônica e suave.
Mas o abraço foi forte, e o beijo sôfrego.
Ela envolveu seu rosto com as mãos e o beijou com a saliva temperada por lágrimas.
Beijaram-se reatando as pontas do tempo. Afagaram-se entre a ânsia e o carinho, esfregando-se, apertando-se, beijando os olhos, a testa, emaranhando os cabelos nas mãos, puxando-se para mais perto, para dentro.
E ficaram assim, na calçada, até que seus olhos pararam novamente, um dentro do outro. Ela soluçava e assentia com a cabeça. Não houve palavra, mas seu coração já sabia.Aquele menino era seu filho.
quarta-feira, janeiro 25, 2006
Oração vivida
Invado a madrugada lendo a noite com olhos tranquilos.
Pela janela, até a cidade me chega mais íntima. As luzes mais leves, os carros mais calmos.
Meu amor, que dorme na minha cama, desperta entre um sonho e outro, rouba meus olhos do livro e me estende o braço, preguiçosa, balbuciando com voz de sono que é para eu abraçá-la e dormir também.
A ordem impera com lógica indiscutível. Há tanta poesia neste momento que o livro perde qualquer sentido.
Ia fazer uma oração também, mas restou desnecessário. Há tanto amor aqui, que posso ver Deus sorrindo para nós e dizendo: boa noite!
Amém.
Pela janela, até a cidade me chega mais íntima. As luzes mais leves, os carros mais calmos.
Meu amor, que dorme na minha cama, desperta entre um sonho e outro, rouba meus olhos do livro e me estende o braço, preguiçosa, balbuciando com voz de sono que é para eu abraçá-la e dormir também.
A ordem impera com lógica indiscutível. Há tanta poesia neste momento que o livro perde qualquer sentido.
Ia fazer uma oração também, mas restou desnecessário. Há tanto amor aqui, que posso ver Deus sorrindo para nós e dizendo: boa noite!
Amém.
terça-feira, janeiro 24, 2006
Estrada
(Trilha sonora: Secos e Molhados)
Quando caio na estrada é como se estivesse pedindo licença da minha própria vida. Abandono minha carcaça, crio meu próprio conceito de tempo, renovo o espírito e jogo fora os pensamentos que são velhos.
Há magia em uma viagem qualquer.
A mim não importa estar indo a um outro país ou ao centro da cidade. O que conta é o espírito que carrego quando saio de casa para ver as coisas. Sair é bom. Andar é bom.
Adoro andar pelo mundo, guiar meus olhos onde eles nunca estiveram, apreciar o belo e o feio, vencer distâncias, alturas, usar meu corpo para aquilo que lhe é tão primário e tão óbvio: o movimento.
Olhar paisagens me diverte. Seja pelo pára-brisa do carro, pela janela de um ônibus, de um avião, na amurada de uma balsa ou, simplesmente, de dentro do meu corpo em movimento, em uma bicicleta ou à pé, no alto de uma montanha, em qualquer lugar do planeta.
O que importa, em qualquer canto, é ser expectador do mundo, assistir a este espetáculo imenso.
Há algo muito forte na estrada. Algo que transforma, algo que transcende.
Minha vida é mais minha na estrada.
O movimento arranha minha alma com uma vontade absurda de sair, tira meu sono e incomoda meu corpo o tempo todo. Minha imaginação quer me arrastar, quer me levar para a estrada de novo, quer me lembrar o quanto sou autêntico quando lanço os pés no rumo de algo novo.
Mas a estrada alimenta a saudade e a saudade catalisa a paixão.
Então, haverão de perguntar, com fundamento: porque da estrada, então?
Para sentir a paixão mais forte. Para bebê-la em grandes doses, em um lugar bonito do mundo, com os olhos infestados de estrelas, com a cabeça mergulhada no universo, viajando na órbita dos beijos mais intensos, na infinitude das melhores lembranças.
Eu volto. Trarei a saudade tatuada na pele e a paixão renovada.
Quando caio na estrada é como se estivesse pedindo licença da minha própria vida. Abandono minha carcaça, crio meu próprio conceito de tempo, renovo o espírito e jogo fora os pensamentos que são velhos.
Há magia em uma viagem qualquer.
A mim não importa estar indo a um outro país ou ao centro da cidade. O que conta é o espírito que carrego quando saio de casa para ver as coisas. Sair é bom. Andar é bom.
Adoro andar pelo mundo, guiar meus olhos onde eles nunca estiveram, apreciar o belo e o feio, vencer distâncias, alturas, usar meu corpo para aquilo que lhe é tão primário e tão óbvio: o movimento.
Olhar paisagens me diverte. Seja pelo pára-brisa do carro, pela janela de um ônibus, de um avião, na amurada de uma balsa ou, simplesmente, de dentro do meu corpo em movimento, em uma bicicleta ou à pé, no alto de uma montanha, em qualquer lugar do planeta.
O que importa, em qualquer canto, é ser expectador do mundo, assistir a este espetáculo imenso.
Há algo muito forte na estrada. Algo que transforma, algo que transcende.
Minha vida é mais minha na estrada.
O movimento arranha minha alma com uma vontade absurda de sair, tira meu sono e incomoda meu corpo o tempo todo. Minha imaginação quer me arrastar, quer me levar para a estrada de novo, quer me lembrar o quanto sou autêntico quando lanço os pés no rumo de algo novo.
Mas a estrada alimenta a saudade e a saudade catalisa a paixão.
Então, haverão de perguntar, com fundamento: porque da estrada, então?
Para sentir a paixão mais forte. Para bebê-la em grandes doses, em um lugar bonito do mundo, com os olhos infestados de estrelas, com a cabeça mergulhada no universo, viajando na órbita dos beijos mais intensos, na infinitude das melhores lembranças.
Eu volto. Trarei a saudade tatuada na pele e a paixão renovada.
quinta-feira, janeiro 19, 2006
Jerônimo
Sim, eu penso em saltar por janelas.
Não, não sou suicida, nem sou daquelas pessoas que fazem questão de chamar a atenção sobre si mesmas.
Sou tímido.
Essa idéia sempre me vinha à cabeça quando estava em ambientes excessivamente formais, em que as pessoas ficam contidas aos gestos uniformes, aos movimentos comedidos, ao silêncio. Mas também já pensei em saltar de janelas de festas, de sacadas, de coberturas.
Eu olhava a janela, o espaço em volta, e me imaginava arrancando o paletó, sério, contando os passos, indiferente, e com o olhar decidido e um sorriso sarcástico, correria alguns passos e estouraria a vidraça, voando junto com os fragmentos de vidro, se vidro houvesse.
Um psicólogo diria, como já disse, que isso seria a "expressão inconsciente de um anseio em romper com a própria timidez, uma forma de rebeldia contra a opressão que o convívio provoca em mim".
Não, doutor, não é isso! Eu sei bem o que é. E os psicólogos não me dizem nada, nem os psiquiatras e nem os charlatães.
Quero me divertir, só isso. Quero tirar sarro com a hipnose da mesmice.
Sempre quis saltar por diversão, para me fingir de herói, ver quantos giros eu conseguiria dar no ar ou quantas piruetas ou quantas coisas meus olhos conseguiriam distinguir na queda livre.
Agora mesmo eu saltaria dessa janela que está bem na minha frente, se não estivesse preso a essas algemas e com os meus pés amarrados e a cabeça pesada pelos remédios.
Só a queda livre me libertaria agora, ou a morte. Mas as duas alternativas parecem unidas e não posso por minhas próprias mãos, matar o maldito segredo que carrego, que não se revela para mim, mas não me abandona.
Tentei dizer isso à doutora, mas é como se estivesse com a cabeça embaixo d'água produzindo sons indistintos, me afogando nas palavras que não saíam da minha bôca.
Como não entendesse nada do que dizia, ela mandou que me dessem outra dose de tranquilizante e aqui estou de novo, dopado, diante da janela aberta, amarrado em minha mísera vida, sendo Jerônimo.
(Ver o post Cena, de 05/01/2006)
Não, não sou suicida, nem sou daquelas pessoas que fazem questão de chamar a atenção sobre si mesmas.
Sou tímido.
Essa idéia sempre me vinha à cabeça quando estava em ambientes excessivamente formais, em que as pessoas ficam contidas aos gestos uniformes, aos movimentos comedidos, ao silêncio. Mas também já pensei em saltar de janelas de festas, de sacadas, de coberturas.
Eu olhava a janela, o espaço em volta, e me imaginava arrancando o paletó, sério, contando os passos, indiferente, e com o olhar decidido e um sorriso sarcástico, correria alguns passos e estouraria a vidraça, voando junto com os fragmentos de vidro, se vidro houvesse.
Um psicólogo diria, como já disse, que isso seria a "expressão inconsciente de um anseio em romper com a própria timidez, uma forma de rebeldia contra a opressão que o convívio provoca em mim".
Não, doutor, não é isso! Eu sei bem o que é. E os psicólogos não me dizem nada, nem os psiquiatras e nem os charlatães.
Quero me divertir, só isso. Quero tirar sarro com a hipnose da mesmice.
Sempre quis saltar por diversão, para me fingir de herói, ver quantos giros eu conseguiria dar no ar ou quantas piruetas ou quantas coisas meus olhos conseguiriam distinguir na queda livre.
Agora mesmo eu saltaria dessa janela que está bem na minha frente, se não estivesse preso a essas algemas e com os meus pés amarrados e a cabeça pesada pelos remédios.
Só a queda livre me libertaria agora, ou a morte. Mas as duas alternativas parecem unidas e não posso por minhas próprias mãos, matar o maldito segredo que carrego, que não se revela para mim, mas não me abandona.
Tentei dizer isso à doutora, mas é como se estivesse com a cabeça embaixo d'água produzindo sons indistintos, me afogando nas palavras que não saíam da minha bôca.
Como não entendesse nada do que dizia, ela mandou que me dessem outra dose de tranquilizante e aqui estou de novo, dopado, diante da janela aberta, amarrado em minha mísera vida, sendo Jerônimo.
(Ver o post Cena, de 05/01/2006)
quinta-feira, janeiro 12, 2006
Razão subvertida
Ontem perdi a hora com todas as gotas de tempo.
E as gotas caíram em minha alma, torturando-a com uma constância monótona.
Pingaram uma a uma na noite escura, imitaram a chuva fina que caía fora da casa velha.
Caíram, gota-a-gota enquanto eu estava lá, deitado, amarrado a uma distância absurda, contando cada pingo no telhado, cada mínima dose de tempo.
E aquele que seria o único remédio para a tortura do tédio em minha insônia
estava longe.
Mas mesmo tão longe, eu podia vê-la, ela, o remédio.
Ou talvez o próprio delírio, mas ela.
Meu mal ou minha cura.
Estava tão longe daquele sorriso
que a distância acabou por se encurtar naquele meu desespero de saudade,
fechei os olhos ignorando a escuridão e o bater das gotas.
Logo percebi que a chuva mudava de tom,e o novo timbre que ouvia se parecia com a voz que ela me dera ao telefone alguns minutos atrás.
Entrei na voz dela, na imaginária voz que gravei em meus sentidos.
De olhos fechados,logo cheguei à sua boca, e nesse delírio de distância e saudade,
acabei beijando o absurdo e sentindo o gosto da boca dela.
E como ela me beijava...
ela me beijava como se sentisse a mesma saudade, como se, mesmo a uma distância tão grande, ela me visse navegando no escuro, procurando um sonho em que estivéssemos juntos, entrando comigo naquela rebeldia de tempo e espaço.
Criamos o nosso mundo ali, naquele lapso do ante-sono, entre a razão e o delírio.
Até que o sono arrebatou meu pensamento e o sonho fugiu ao meu controle, e aquele instante evaporou como névoa, mas eu me lembro muito bem!
Que antes da intervenção da lógica, em sua ira de ver rompida sua lei, em sua obcessão de querer tudo certo e ordenado, antes que essa maníaca afastasse aquele portal mágico que criei,eu sei que estive com ela e que dormimos juntos.
Sei disso com muita certeza, porque acordei com o sol sorrindo, e o mundo irradiava a mesma luz que vi no sorriso dela.
Tudo isso aconteceu ontem à noite e eu me lembro muito bem.
E as gotas caíram em minha alma, torturando-a com uma constância monótona.
Pingaram uma a uma na noite escura, imitaram a chuva fina que caía fora da casa velha.
Caíram, gota-a-gota enquanto eu estava lá, deitado, amarrado a uma distância absurda, contando cada pingo no telhado, cada mínima dose de tempo.
E aquele que seria o único remédio para a tortura do tédio em minha insônia
estava longe.
Mas mesmo tão longe, eu podia vê-la, ela, o remédio.
Ou talvez o próprio delírio, mas ela.
Meu mal ou minha cura.
Estava tão longe daquele sorriso
que a distância acabou por se encurtar naquele meu desespero de saudade,
fechei os olhos ignorando a escuridão e o bater das gotas.
Logo percebi que a chuva mudava de tom,e o novo timbre que ouvia se parecia com a voz que ela me dera ao telefone alguns minutos atrás.
Entrei na voz dela, na imaginária voz que gravei em meus sentidos.
De olhos fechados,logo cheguei à sua boca, e nesse delírio de distância e saudade,
acabei beijando o absurdo e sentindo o gosto da boca dela.
E como ela me beijava...
ela me beijava como se sentisse a mesma saudade, como se, mesmo a uma distância tão grande, ela me visse navegando no escuro, procurando um sonho em que estivéssemos juntos, entrando comigo naquela rebeldia de tempo e espaço.
Criamos o nosso mundo ali, naquele lapso do ante-sono, entre a razão e o delírio.
Até que o sono arrebatou meu pensamento e o sonho fugiu ao meu controle, e aquele instante evaporou como névoa, mas eu me lembro muito bem!
Que antes da intervenção da lógica, em sua ira de ver rompida sua lei, em sua obcessão de querer tudo certo e ordenado, antes que essa maníaca afastasse aquele portal mágico que criei,eu sei que estive com ela e que dormimos juntos.
Sei disso com muita certeza, porque acordei com o sol sorrindo, e o mundo irradiava a mesma luz que vi no sorriso dela.
Tudo isso aconteceu ontem à noite e eu me lembro muito bem.
quinta-feira, janeiro 05, 2006
Cena
Por quatro noites seguidas, dois homens fortes de cara fechada desceram as escadas e seguiram o corredor do segundo piso até o final.
Ao fim da quarta noite, como se encontrassem o objeto de tão obstinada busca, levantaram a cabeça do homem que se sentava próximo à porta do último quarto, o que estava de pé gritou "jerônimo? esta é a sua sentença" e apontou uma arma brilhante que disparou duas balas de chumbo para o interior da cabeça do homem sentado.
Ao passarem por mim, chutaram com desdém minhas pernas mortas e cuspiram na minha cara palavras de repulsa enquanto eu gaguejava assustado pelo barulho dos tiros.
O cuspe caiu nas faixas que enrolavam minha cabeça que doía por causa da lobotomia mal-sucedida.
O que os homens não ouviram era o que eu tentava dizer quando repetia "ah-ah-ah" freneticamente sem produzir qualquer palavra.
Eu tentava dizer a eles que Jerônimo sou eu. Mas minha sentença não foi cumprida e tenho que penar esta vida e este segredo depois da morte que não tive.
Ao fim da quarta noite, como se encontrassem o objeto de tão obstinada busca, levantaram a cabeça do homem que se sentava próximo à porta do último quarto, o que estava de pé gritou "jerônimo? esta é a sua sentença" e apontou uma arma brilhante que disparou duas balas de chumbo para o interior da cabeça do homem sentado.
Ao passarem por mim, chutaram com desdém minhas pernas mortas e cuspiram na minha cara palavras de repulsa enquanto eu gaguejava assustado pelo barulho dos tiros.
O cuspe caiu nas faixas que enrolavam minha cabeça que doía por causa da lobotomia mal-sucedida.
O que os homens não ouviram era o que eu tentava dizer quando repetia "ah-ah-ah" freneticamente sem produzir qualquer palavra.
Eu tentava dizer a eles que Jerônimo sou eu. Mas minha sentença não foi cumprida e tenho que penar esta vida e este segredo depois da morte que não tive.
quarta-feira, janeiro 04, 2006
Terra
Estive lá.
Pisei na terra.
Revi os vivos e os mortos. Vi a mim mesmo, criança, quando ainda tinha medo e fascínio com aquilo que me era novo: o mundo.
Perdi-me no tempo e segui andando a esmo confundindo o caminhar do tempo de agora com a memória do eu-menino, onde nasci, onde moram meus pais, onde todos os meus ancestrais estão enterrados.
Eu me vi seguindo os passos de meu avô, os passos largos e ritmados do alazão montado por seu Augusto, debaixo do chapéu “três X” e enrolado em uma capa “colonial” que cobria toda a garupa do animal.
Era ele, o meu avô, o homem que tinha tempo de ouvir um menino. Eu era o menino que gostava de ouvir o homem que contava estórias de um tempo que não era o meu. Um homem que tinha um furo no queixo, que debochava da seriedade dos outros homens, meu avô.
Senti o frio deste dia distante, quando andava sobre um cavalo que pateava cauteloso na lama fina da estrada, e sob uma neblina de gelar os ossos. Era eu, adolescente, seguindo os passos de Vovô Augusto em direção à sede do seu pedaço de terra naquele sertão de meu Deus.
Era eu aprendendo o desconforto e o prazer de cavalgar pelo mundo, de se deslocar daquela forma tão primitiva e verdadeira. A honestidade de respeitar o ritmo do tempo, de alçar cada passo, movendo cada músculo e pagando, com esforço, cada palmo do caminho.
Ali as lições não eram faladas, eram vividas. E todo o desassossego da alma humana se resumia a um cavalgar lento, contra a vontade do tempo e contra toda precaução.
Lá as estradas eram longas, tortuosas e perigosas. Lá estávamos à mercê da natureza.
Aprendi, na passividade do rosto do velho Augusto, que sempre há algo a fazer e que a vida nos pretende sérios para carregar os fardos e fortes para transcender a dor. Aprendi que dois homens andando juntos estão a um só tempo solitários com suas vidas e solidários no caminhar.
Era eu aprendendo que a vida, ali, se dividia em uma, duas, três; porque eu, sendo filho de meu pai, filho do meu avô, era uma coisa só, três elos em um, e já era a promessa de continuidade, sina, saga e destino.
Vovô Augusto guiava os passos porque sabia o caminho e o ritmo que a vida impõe. Eu seguia atrás, calado e atento. Não haviam palavras que se acomodassem ao espírito nem felicidade que se aconchegasse à alma atordoada pela neblina e pelo frio.
Enquanto rompíamos os sons da chuva na terra e recebíamos o calor vivo do suor dos animais, éramos pura concordância. Enquanto estive ali no lugar de meu pai, vi meu filho me seguindo, e logo vi meu neto, como aprendiz daquele que aprendeu comigo.
Eu era a última mão viva da minha tríade, e neste momento via-me de longe, sendo, a um só tempo: pai, filho e avô.
Naqueles passos, eu vi minha dinastia e me senti feliz. Vi o pioneiro, vi seus gestos e sua força, e o caminho já não importava mais.
Agora era meu pai quem guiava o caminho e meu avô, neste então, já não vivia mais. E eu já tinha a ciência do caminho, o que aprendia agora era a coragem com que deveria guiá-lo, a consciência do controle, a sabedoria de ser livre e senhor das rotas que a vida oferece.
No meu rosto já estavam esculpidos a saudade da perda, a seriedade do trabalho e as cicatrizes de paixão. E eu tinha tão poucos anos.
O tempo seguiu sua linha e agora meu pai era o último elo vivo, e logo seria eu. Mas a certeza da morte não me trazia dor, só uma resignação muda.
Senti-me pronto a olhar para frente, senti-me apto a gerar um filho e continuar a tarefa de meus ancestrais.
Aquele chão é casa de meu pai e do pai de meu pai. É onde brotaram a força e a fibra que compõe minha essência, é onde meu passado, presente e futuro se fundem de forma misteriosa e bonita; é onde minhas lágrimas me trazem conforto e maturidade, onde sou raiz.
Pisando naquela terra, tive a certeza de que sempre voltaria, e um dia traria meu filho, e que o guiaria na cavalgada muda, para que aprendesse também o verdadeiro sentido da vida.
Pisei na terra.
Revi os vivos e os mortos. Vi a mim mesmo, criança, quando ainda tinha medo e fascínio com aquilo que me era novo: o mundo.
Perdi-me no tempo e segui andando a esmo confundindo o caminhar do tempo de agora com a memória do eu-menino, onde nasci, onde moram meus pais, onde todos os meus ancestrais estão enterrados.
Eu me vi seguindo os passos de meu avô, os passos largos e ritmados do alazão montado por seu Augusto, debaixo do chapéu “três X” e enrolado em uma capa “colonial” que cobria toda a garupa do animal.
Era ele, o meu avô, o homem que tinha tempo de ouvir um menino. Eu era o menino que gostava de ouvir o homem que contava estórias de um tempo que não era o meu. Um homem que tinha um furo no queixo, que debochava da seriedade dos outros homens, meu avô.
Senti o frio deste dia distante, quando andava sobre um cavalo que pateava cauteloso na lama fina da estrada, e sob uma neblina de gelar os ossos. Era eu, adolescente, seguindo os passos de Vovô Augusto em direção à sede do seu pedaço de terra naquele sertão de meu Deus.
Era eu aprendendo o desconforto e o prazer de cavalgar pelo mundo, de se deslocar daquela forma tão primitiva e verdadeira. A honestidade de respeitar o ritmo do tempo, de alçar cada passo, movendo cada músculo e pagando, com esforço, cada palmo do caminho.
Ali as lições não eram faladas, eram vividas. E todo o desassossego da alma humana se resumia a um cavalgar lento, contra a vontade do tempo e contra toda precaução.
Lá as estradas eram longas, tortuosas e perigosas. Lá estávamos à mercê da natureza.
Aprendi, na passividade do rosto do velho Augusto, que sempre há algo a fazer e que a vida nos pretende sérios para carregar os fardos e fortes para transcender a dor. Aprendi que dois homens andando juntos estão a um só tempo solitários com suas vidas e solidários no caminhar.
Era eu aprendendo que a vida, ali, se dividia em uma, duas, três; porque eu, sendo filho de meu pai, filho do meu avô, era uma coisa só, três elos em um, e já era a promessa de continuidade, sina, saga e destino.
Vovô Augusto guiava os passos porque sabia o caminho e o ritmo que a vida impõe. Eu seguia atrás, calado e atento. Não haviam palavras que se acomodassem ao espírito nem felicidade que se aconchegasse à alma atordoada pela neblina e pelo frio.
Enquanto rompíamos os sons da chuva na terra e recebíamos o calor vivo do suor dos animais, éramos pura concordância. Enquanto estive ali no lugar de meu pai, vi meu filho me seguindo, e logo vi meu neto, como aprendiz daquele que aprendeu comigo.
Eu era a última mão viva da minha tríade, e neste momento via-me de longe, sendo, a um só tempo: pai, filho e avô.
Naqueles passos, eu vi minha dinastia e me senti feliz. Vi o pioneiro, vi seus gestos e sua força, e o caminho já não importava mais.
Agora era meu pai quem guiava o caminho e meu avô, neste então, já não vivia mais. E eu já tinha a ciência do caminho, o que aprendia agora era a coragem com que deveria guiá-lo, a consciência do controle, a sabedoria de ser livre e senhor das rotas que a vida oferece.
No meu rosto já estavam esculpidos a saudade da perda, a seriedade do trabalho e as cicatrizes de paixão. E eu tinha tão poucos anos.
O tempo seguiu sua linha e agora meu pai era o último elo vivo, e logo seria eu. Mas a certeza da morte não me trazia dor, só uma resignação muda.
Senti-me pronto a olhar para frente, senti-me apto a gerar um filho e continuar a tarefa de meus ancestrais.
Aquele chão é casa de meu pai e do pai de meu pai. É onde brotaram a força e a fibra que compõe minha essência, é onde meu passado, presente e futuro se fundem de forma misteriosa e bonita; é onde minhas lágrimas me trazem conforto e maturidade, onde sou raiz.
Pisando naquela terra, tive a certeza de que sempre voltaria, e um dia traria meu filho, e que o guiaria na cavalgada muda, para que aprendesse também o verdadeiro sentido da vida.
sábado, dezembro 10, 2005
Momento absurdo
Naquele beijo, devorou o mundo.
Comeu, naquela ânsia de bocas, todas as coisas que lhe foram negadas durante toda a sua vida.
Beijou bebendo água com sede incontrolável.
Beijou à toda paixão, à todo instinto, à toda loucura.
Naquele beijo, o instante foi nu, e a vida, real.
Os corpos, as bocas, a saliva, a ânsia, o instinto, a fome, a paixão.
Tudo foi tão nítido e tão certo.
O tempo parou naquele beijo faminto.
E era seu, o beijo. Era seu aquele tempo parado, aquela magia impensável.
A pele incandescente e o corpo eloqüente na dialética hormonal.
Dizia paixão em cada gesto e cada toque. A febre irradiava, o sangue explodia nas veias.
E ela bebia o beijo também, no mesmo manancial e com a mesma sede.
E sua paixão enfim vazou todas as regras e medos.
E aquele instante tão concreto e tão denso envolveu-a de tal maneira podia perceber o tempo parando e a gravidade se anulando.
Flutuva, mergulhada no beijo.
A pele respondeu à febre dele e se incendiou também, e os pelos eriçaram dizendo que a pele viva e elétrica compreendia aquela linguagem dos corpos.
Ergueu-se na ponta dos pés e os olhos, fechados viram profusões de vermelho.
Eram um, eram a pura perfeição.
As lágrimas colavam o cabelo na face e a saliva recendia aquele cheiro que carregariam naquele canto da memória responsável pelas lembranças de nó na garganta e pernas trêmulas.
Aquele beijo era infinito, duraria por toda a vida e pelas vidas que viessem ainda depois daquela.
Aquele beijo era um totem, um sinal sagrado de que suas vidas estavam ligadas para sempre.
Aquele beijo era a razão do antes e do depois, numa síntese de agora.
Viveram uma vida inteira naquele devorar de bocas.
Amaram-se, casaram-se, fizeram filhos, planos, sonhos, viagens, jogaram pedras em lagos, sentaram em bancos de praça e, como um caleidoscópio girando em alta velocidade, nunca puderam compreender ao certo todas as imagens que lhe passavam pela cabeça.
Beijaram-se e foram pura paixão e naquele infinito instante à margem do tempo.
A vida, ali, soube à perfeição.
Comeu, naquela ânsia de bocas, todas as coisas que lhe foram negadas durante toda a sua vida.
Beijou bebendo água com sede incontrolável.
Beijou à toda paixão, à todo instinto, à toda loucura.
Naquele beijo, o instante foi nu, e a vida, real.
Os corpos, as bocas, a saliva, a ânsia, o instinto, a fome, a paixão.
Tudo foi tão nítido e tão certo.
O tempo parou naquele beijo faminto.
E era seu, o beijo. Era seu aquele tempo parado, aquela magia impensável.
A pele incandescente e o corpo eloqüente na dialética hormonal.
Dizia paixão em cada gesto e cada toque. A febre irradiava, o sangue explodia nas veias.
E ela bebia o beijo também, no mesmo manancial e com a mesma sede.
E sua paixão enfim vazou todas as regras e medos.
E aquele instante tão concreto e tão denso envolveu-a de tal maneira podia perceber o tempo parando e a gravidade se anulando.
Flutuva, mergulhada no beijo.
A pele respondeu à febre dele e se incendiou também, e os pelos eriçaram dizendo que a pele viva e elétrica compreendia aquela linguagem dos corpos.
Ergueu-se na ponta dos pés e os olhos, fechados viram profusões de vermelho.
Eram um, eram a pura perfeição.
As lágrimas colavam o cabelo na face e a saliva recendia aquele cheiro que carregariam naquele canto da memória responsável pelas lembranças de nó na garganta e pernas trêmulas.
Aquele beijo era infinito, duraria por toda a vida e pelas vidas que viessem ainda depois daquela.
Aquele beijo era um totem, um sinal sagrado de que suas vidas estavam ligadas para sempre.
Aquele beijo era a razão do antes e do depois, numa síntese de agora.
Viveram uma vida inteira naquele devorar de bocas.
Amaram-se, casaram-se, fizeram filhos, planos, sonhos, viagens, jogaram pedras em lagos, sentaram em bancos de praça e, como um caleidoscópio girando em alta velocidade, nunca puderam compreender ao certo todas as imagens que lhe passavam pela cabeça.
Beijaram-se e foram pura paixão e naquele infinito instante à margem do tempo.
A vida, ali, soube à perfeição.
segunda-feira, dezembro 05, 2005
De dentro para fora.
“Ai dos corações tímidos, das mãos sem vigor”. (Eclesiástico, 2, 14, do texto grego)
E eis que me encontro de novo à beira do soco, na iminência do golpe.
Eis que retorna a cena clichê em meu surrado filme cotidiano: Eu, puto e impotente.
A angústia virando frustração, que vira revolta, que se decanta em raiva, a raiva que desce para os músculos, que somatiza no corpo a expressão impassível da fúria. O olhar inacessível, o cenho fechado, o verbo irascível engatilhado na ponta-da-língua.
Olho a cena e me irrita a impassividade com que os objetos encaram minha angústia. Meus móveis, os mesmos; minhas roupas, as mesmas; as coisas... essas coisas que carrego nos bolsos, no ouvido, nas mãos, essas coisas que não sabem de nada. Ignoram, as coisas, aquilo que acontece dentro de mim quando o amor me falta, quando a minha carência grita na imensidão deserta do cotidiano.
O telefone, esse maldito, não pronuncia palavra para me salvar, impiedosamente inerte, quieto, apagado, escravizando minha ansiedade na negativa de cada segundo.
O silêncio afronta a minha dor.
Silêncio do mundo, grito da alma.
Arrebento minha mão, mas não entrego meu corpo à solidão. E antes que nele não reste mais uma gota sequer de vida, não paro de bater nas coisas. Este é o lado louco que não ouso esconder de mim mesmo. Meu espírito é punk.
Talvez, esvaziando meu corpo, não me reste mais ânimo para tristeza.
Meu soco não é um soco vândalo, não é ignorância incivilizada. É o esperneio do coração esmagado, é reação.
Acerto paredes, portas, travesseiro, cama, móveis, chão. Acerto aquilo que me afronta, a quietude, o silêncio, a inércia das coisas. Destruo a pele, acabo com a higidez dos nervos, com a simetria das articulações, e tudo isso me acaba um pouco.
Mas minha tristeza permanece e se agrava. Ela se apura e, no corpo vazio, se transforma em auto-compaixão, e é então que meu ridículo atinge o seu nível mais alto, quando caído no chão, transpirando, com os músculos tensos, a imagem do rebelde ensandecido cai por terra e o desespero fica mais nítido em meus olhos que choram, em minha boca que baba.
Meu corpo está desnutrido de amor, é essa minha verdade.
O abandono de quem se apaixona é uma espiral em queda livre. Estou caindo agora, estou pagando a alma. Estou no inferno.
Meu disco-rígido está cheio. Travado. Em minha cabeça não cabe mais nada além da minha dor. Qualquer palavra alheia me fere, porque não é para mim e qualquer palavra agora seria alheia a tudo o que me dói, portanto não quero palavras, elas me irritam, machucam, me enchem com toda essa dialética inútil, vazia.
Assim, vejo a contradição impensável em mim: amor e desespero. Algo absurdo: preciso desesperadamente da mesmice do amor.
Não sei o quê, nem quando, mas algo em mim está incuravelmente velho e caminha para a morte.
Cansado, esgotado chorando, junto o que resta de vida em minhas células levo meus olhos à janela, que escancaro para espancar o mundo com meu olhar “punk”, mas é o mundo que me espanca com sua insensibilidade.
Viração
Vejo nuvens fechando o cerco sobre a cidade. O formigueiro se apavora.
Isso me diverte. Nesses momentos em que o humano treme diante da realidade da natureza, não há qualquer hiprocrisia. O tempo se fecha e chove sem perguntar à cidade se ela está pronta, se suas ruas não serão inundadas, se as pessoas estão com guarda-chuvas, se as janelas foram fechadas, se as roupas estão no varal, se sabem dirigir na pista molhada.
Impressionante como a dor me dá esta sensação torpeza e bem-estar. É como se minha fragilidade me confortasse.
Tem algo errado. Algo muito errado com esse meu coração.
As coisas fazem cada vez menos sentido para mim.
Sempre me senti à margem do mundo, mas agora, sem amor, sinto que não há mais motivo para ficar onde estou e ser quem finjo.
A rotina faz de mim algo bem distante do que sou, e a secura do coração deixa mais sensível o incômodo dessa existência articulada.
Sou animal contido em um teatro sem verdade.
Quero fugir, quero sair daqui, quero ser eu, embora não faça a menor idéia de como seja isso. Preciso muito ver minha alma de fora para dentro, enxergar aquilo que escreve minha própria essência. Preciso sair de mim para saber quem sou. Não sei para onde nem como, mas preciso sair.
Só esta viração me traz alento, pairando sobre tudo estão as nuvens. Elas, sim, me fazem bem. Elas se chocam e fazem tremer o chão, jogam descargas elétricas aleatoriamente pelo espaço, avacalham com a rotina.
Como amo esta viração.
Como adoro esta ameaça de tempestade, esta incerteza, esta ruptura do normal.
Como adoro esta contra-cultura natural, como me alegra a verdade das coisas, dos fatos, daquilo que simplesmente existe
Tiro a gravata. Tiro a camisa e, botão a botão, sigo mirando o rosto que vejo no espelho. Aquilo sou eu.
Quão estranho pareço para mim.
Abro todas as janelas. quero que a chuva entre e estrague com tudo, quero que a chuva me salve de toda esta artificialidade.
A chuva ainda é só vento. Ventania desordenada que espalha todos os papéis da minha pasta estatelada no chão.
Agora somos o vento e eu contra o resto do mundo.
Chuva
Sinto-me bem melhor com a possibilidade de chuva.
Mas o tempo ainda insiste em gotejar ao meu redor, ditando o compasso em que anda o mundo e desdenhando da insignificância da minha revolta. O tempo me tortura com a monotonia dos segundos fugindo um a um em irritante constância.
Não tenho mais forças para brigar. Sequer tenho ânimo para chorar. Deixo que as coisas simplesmente aconteçam agora. Só minha passividade me acalma.
A chuva vem, este é o meu consolo, ela vem quebrar o discurso imperativo do cotidiano.
Meu amor está todo na chuva agora. As nuvens descarregam meus medos.
Ponho o rosto na janela para sentir o impacto das gotas grandes e fortes.
Com as mãos trêmulas, feridas, encosto a mesa na janela e sento-me escrevendo tudo o que me vem à cabeça, parece uma confissão, mas é desarmonia humana:
“Aqui jaz minha alma.
Aqui, neste papel molhado, borrado, escrevi meus últimos versos de amor e os entreguei à tempestade para que selasse a verdade do momento e manchasse aquilo que já estava encharcado de sangue: a palavra.
Aqui despejei quase todo o resto de dor que ainda tinha no peito. A dor era muita porque o amor também o era.
Aqui entreguei os segredos que se escondiam entre artérias e os músculos, que vagavam na corrente sanguínea e voltava ao coração. Meus segredos mais íntimos, meu amor mais visceral.
Este amor morreu à míngua, agonizando, estrebuchando no meu corpo que já se rebelou e agora está contido pela impotência e pela dor.
Este papel resume, na verdade, a desilusão de toda uma vida: o próprio amor.
Daqui, do alto do meu apartamento, da réstia de cidade que minha janela me permite. Daqui, do trono da minha mais absoluta desolação, o amor me parece ainda mais distante”.
E do alto da minha miséria consigo distinguir, no horizonte do meu espírito, aquilo que me incomoda. Vejo, ao meu redor, uma aquarela com as pessoas que circulavam em torno da minha vida. Eu só consigo ver a dor delas, eu só vejo seu incômodo. Eu as vejo feridas, maculadas pela brutalidade do amor, pela violência com que o amor é retirado e colocado em suas vidas.
Como compreendo, neste breve momento, a complexidade de conseqüências que envolve o amor. Como enxergo longe e vejo com tanta nitidez a densidade trazida pelo amor.
E tudo dói tanto que não imagino como pensar em outras coisas.
Não compreendo, neste momento absurdo, como tenho conseguido agir por todos estes dias como se outra coisa existisse em mim além de um amor machucado.
A tempestade minguou, e também o seu ânimo.
A coisa foi se afastando aos poucos e à medida que se ia, as palavras se apagavam do pensamento e a vontade de declarar qualquer coisa se perdeu entre a cabeça e as mãos.
Os dedos perderam a vontade e os olhos fugiram, alheios, serenos, passivos, absorvendo, sem dar por isso, o conteúdo daquela calmaria. A cidade desolada, o silêncio, a água brilhando em todos os cantos. Tudo lavado, tudo quieto, tudo resignado pela imperatividade das vontades do céu.
Foi abandonando o transe e a auto-compaixão. Toda aquela aquela densidade sentimental se afastou dele em câmera lenta, tornava-se secundária ao vazio de idéias e de sentidos.
Aos poucos, o pensamento foi abandonando o ego, se desligando da auto-compaixão e se tornando algo bem mais leve, algo que pedia um blues.
Ligou o blues, ouviu “Secos e Molhados”, baixinho. O som expandia-se pela sala em total conformidade com o momento. Por um instante, as coisas todas pareceram certas.
Com a música, o quarto ficou mais poético, a chuva mais melódica e a noite ficou azul. Uma leveza aconchegante tomou conta de seus movimentos e acomodou sua alma...
Dormiu ouvindo blues.
E eis que me encontro de novo à beira do soco, na iminência do golpe.
Eis que retorna a cena clichê em meu surrado filme cotidiano: Eu, puto e impotente.
A angústia virando frustração, que vira revolta, que se decanta em raiva, a raiva que desce para os músculos, que somatiza no corpo a expressão impassível da fúria. O olhar inacessível, o cenho fechado, o verbo irascível engatilhado na ponta-da-língua.
Olho a cena e me irrita a impassividade com que os objetos encaram minha angústia. Meus móveis, os mesmos; minhas roupas, as mesmas; as coisas... essas coisas que carrego nos bolsos, no ouvido, nas mãos, essas coisas que não sabem de nada. Ignoram, as coisas, aquilo que acontece dentro de mim quando o amor me falta, quando a minha carência grita na imensidão deserta do cotidiano.
O telefone, esse maldito, não pronuncia palavra para me salvar, impiedosamente inerte, quieto, apagado, escravizando minha ansiedade na negativa de cada segundo.
O silêncio afronta a minha dor.
Silêncio do mundo, grito da alma.
Arrebento minha mão, mas não entrego meu corpo à solidão. E antes que nele não reste mais uma gota sequer de vida, não paro de bater nas coisas. Este é o lado louco que não ouso esconder de mim mesmo. Meu espírito é punk.
Talvez, esvaziando meu corpo, não me reste mais ânimo para tristeza.
Meu soco não é um soco vândalo, não é ignorância incivilizada. É o esperneio do coração esmagado, é reação.
Acerto paredes, portas, travesseiro, cama, móveis, chão. Acerto aquilo que me afronta, a quietude, o silêncio, a inércia das coisas. Destruo a pele, acabo com a higidez dos nervos, com a simetria das articulações, e tudo isso me acaba um pouco.
Mas minha tristeza permanece e se agrava. Ela se apura e, no corpo vazio, se transforma em auto-compaixão, e é então que meu ridículo atinge o seu nível mais alto, quando caído no chão, transpirando, com os músculos tensos, a imagem do rebelde ensandecido cai por terra e o desespero fica mais nítido em meus olhos que choram, em minha boca que baba.
Meu corpo está desnutrido de amor, é essa minha verdade.
O abandono de quem se apaixona é uma espiral em queda livre. Estou caindo agora, estou pagando a alma. Estou no inferno.
Meu disco-rígido está cheio. Travado. Em minha cabeça não cabe mais nada além da minha dor. Qualquer palavra alheia me fere, porque não é para mim e qualquer palavra agora seria alheia a tudo o que me dói, portanto não quero palavras, elas me irritam, machucam, me enchem com toda essa dialética inútil, vazia.
Assim, vejo a contradição impensável em mim: amor e desespero. Algo absurdo: preciso desesperadamente da mesmice do amor.
Não sei o quê, nem quando, mas algo em mim está incuravelmente velho e caminha para a morte.
Cansado, esgotado chorando, junto o que resta de vida em minhas células levo meus olhos à janela, que escancaro para espancar o mundo com meu olhar “punk”, mas é o mundo que me espanca com sua insensibilidade.
Viração
Vejo nuvens fechando o cerco sobre a cidade. O formigueiro se apavora.
Isso me diverte. Nesses momentos em que o humano treme diante da realidade da natureza, não há qualquer hiprocrisia. O tempo se fecha e chove sem perguntar à cidade se ela está pronta, se suas ruas não serão inundadas, se as pessoas estão com guarda-chuvas, se as janelas foram fechadas, se as roupas estão no varal, se sabem dirigir na pista molhada.
Impressionante como a dor me dá esta sensação torpeza e bem-estar. É como se minha fragilidade me confortasse.
Tem algo errado. Algo muito errado com esse meu coração.
As coisas fazem cada vez menos sentido para mim.
Sempre me senti à margem do mundo, mas agora, sem amor, sinto que não há mais motivo para ficar onde estou e ser quem finjo.
A rotina faz de mim algo bem distante do que sou, e a secura do coração deixa mais sensível o incômodo dessa existência articulada.
Sou animal contido em um teatro sem verdade.
Quero fugir, quero sair daqui, quero ser eu, embora não faça a menor idéia de como seja isso. Preciso muito ver minha alma de fora para dentro, enxergar aquilo que escreve minha própria essência. Preciso sair de mim para saber quem sou. Não sei para onde nem como, mas preciso sair.
Só esta viração me traz alento, pairando sobre tudo estão as nuvens. Elas, sim, me fazem bem. Elas se chocam e fazem tremer o chão, jogam descargas elétricas aleatoriamente pelo espaço, avacalham com a rotina.
Como amo esta viração.
Como adoro esta ameaça de tempestade, esta incerteza, esta ruptura do normal.
Como adoro esta contra-cultura natural, como me alegra a verdade das coisas, dos fatos, daquilo que simplesmente existe
Tiro a gravata. Tiro a camisa e, botão a botão, sigo mirando o rosto que vejo no espelho. Aquilo sou eu.
Quão estranho pareço para mim.
Abro todas as janelas. quero que a chuva entre e estrague com tudo, quero que a chuva me salve de toda esta artificialidade.
A chuva ainda é só vento. Ventania desordenada que espalha todos os papéis da minha pasta estatelada no chão.
Agora somos o vento e eu contra o resto do mundo.
Chuva
Sinto-me bem melhor com a possibilidade de chuva.
Mas o tempo ainda insiste em gotejar ao meu redor, ditando o compasso em que anda o mundo e desdenhando da insignificância da minha revolta. O tempo me tortura com a monotonia dos segundos fugindo um a um em irritante constância.
Não tenho mais forças para brigar. Sequer tenho ânimo para chorar. Deixo que as coisas simplesmente aconteçam agora. Só minha passividade me acalma.
A chuva vem, este é o meu consolo, ela vem quebrar o discurso imperativo do cotidiano.
Meu amor está todo na chuva agora. As nuvens descarregam meus medos.
Ponho o rosto na janela para sentir o impacto das gotas grandes e fortes.
Com as mãos trêmulas, feridas, encosto a mesa na janela e sento-me escrevendo tudo o que me vem à cabeça, parece uma confissão, mas é desarmonia humana:
“Aqui jaz minha alma.
Aqui, neste papel molhado, borrado, escrevi meus últimos versos de amor e os entreguei à tempestade para que selasse a verdade do momento e manchasse aquilo que já estava encharcado de sangue: a palavra.
Aqui despejei quase todo o resto de dor que ainda tinha no peito. A dor era muita porque o amor também o era.
Aqui entreguei os segredos que se escondiam entre artérias e os músculos, que vagavam na corrente sanguínea e voltava ao coração. Meus segredos mais íntimos, meu amor mais visceral.
Este amor morreu à míngua, agonizando, estrebuchando no meu corpo que já se rebelou e agora está contido pela impotência e pela dor.
Este papel resume, na verdade, a desilusão de toda uma vida: o próprio amor.
Daqui, do alto do meu apartamento, da réstia de cidade que minha janela me permite. Daqui, do trono da minha mais absoluta desolação, o amor me parece ainda mais distante”.
E do alto da minha miséria consigo distinguir, no horizonte do meu espírito, aquilo que me incomoda. Vejo, ao meu redor, uma aquarela com as pessoas que circulavam em torno da minha vida. Eu só consigo ver a dor delas, eu só vejo seu incômodo. Eu as vejo feridas, maculadas pela brutalidade do amor, pela violência com que o amor é retirado e colocado em suas vidas.
Como compreendo, neste breve momento, a complexidade de conseqüências que envolve o amor. Como enxergo longe e vejo com tanta nitidez a densidade trazida pelo amor.
E tudo dói tanto que não imagino como pensar em outras coisas.
Não compreendo, neste momento absurdo, como tenho conseguido agir por todos estes dias como se outra coisa existisse em mim além de um amor machucado.
A tempestade minguou, e também o seu ânimo.
A coisa foi se afastando aos poucos e à medida que se ia, as palavras se apagavam do pensamento e a vontade de declarar qualquer coisa se perdeu entre a cabeça e as mãos.
Os dedos perderam a vontade e os olhos fugiram, alheios, serenos, passivos, absorvendo, sem dar por isso, o conteúdo daquela calmaria. A cidade desolada, o silêncio, a água brilhando em todos os cantos. Tudo lavado, tudo quieto, tudo resignado pela imperatividade das vontades do céu.
Foi abandonando o transe e a auto-compaixão. Toda aquela aquela densidade sentimental se afastou dele em câmera lenta, tornava-se secundária ao vazio de idéias e de sentidos.
Aos poucos, o pensamento foi abandonando o ego, se desligando da auto-compaixão e se tornando algo bem mais leve, algo que pedia um blues.
Ligou o blues, ouviu “Secos e Molhados”, baixinho. O som expandia-se pela sala em total conformidade com o momento. Por um instante, as coisas todas pareceram certas.
Com a música, o quarto ficou mais poético, a chuva mais melódica e a noite ficou azul. Uma leveza aconchegante tomou conta de seus movimentos e acomodou sua alma...
Dormiu ouvindo blues.
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