quinta-feira, janeiro 19, 2006

Jerônimo

Sim, eu penso em saltar por janelas.
Não, não sou suicida, nem sou daquelas pessoas que fazem questão de chamar a atenção sobre si mesmas.
Sou tímido.
Essa idéia sempre me vinha à cabeça quando estava em ambientes excessivamente formais, em que as pessoas ficam contidas aos gestos uniformes, aos movimentos comedidos, ao silêncio. Mas também já pensei em saltar de janelas de festas, de sacadas, de coberturas.
Eu olhava a janela, o espaço em volta, e me imaginava arrancando o paletó, sério, contando os passos, indiferente, e com o olhar decidido e um sorriso sarcástico, correria alguns passos e estouraria a vidraça, voando junto com os fragmentos de vidro, se vidro houvesse.
Um psicólogo diria, como já disse, que isso seria a "expressão inconsciente de um anseio em romper com a própria timidez, uma forma de rebeldia contra a opressão que o convívio provoca em mim".
Não, doutor, não é isso! Eu sei bem o que é. E os psicólogos não me dizem nada, nem os psiquiatras e nem os charlatães.
Quero me divertir, só isso. Quero tirar sarro com a hipnose da mesmice.
Sempre quis saltar por diversão, para me fingir de herói, ver quantos giros eu conseguiria dar no ar ou quantas piruetas ou quantas coisas meus olhos conseguiriam distinguir na queda livre.
Agora mesmo eu saltaria dessa janela que está bem na minha frente, se não estivesse preso a essas algemas e com os meus pés amarrados e a cabeça pesada pelos remédios.
Só a queda livre me libertaria agora, ou a morte. Mas as duas alternativas parecem unidas e não posso por minhas próprias mãos, matar o maldito segredo que carrego, que não se revela para mim, mas não me abandona.
Tentei dizer isso à doutora, mas é como se estivesse com a cabeça embaixo d'água produzindo sons indistintos, me afogando nas palavras que não saíam da minha bôca.
Como não entendesse nada do que dizia, ela mandou que me dessem outra dose de tranquilizante e aqui estou de novo, dopado, diante da janela aberta, amarrado em minha mísera vida, sendo Jerônimo.
(Ver o post Cena, de 05/01/2006)

4 comentários:

Bia disse...

Qdo comecei a ler o post, me lembrei de uma frase - acho que do Drummond - que diz "nunca gostei dessas reuniões sociais, o excesso de gente me impede de ver as pessoas" Dá uma vontade de quebrar o protocolo, né??? rsss Bjs!

*** Juliana*** disse...

Ei Uri,adorei o texto!!!
Passei p desejar q seu find seja p lá d divertido.Bjus!

Tetê disse...

A timidez é uma corrente que nos prende e não nos deixa viver a vida como deve ser! Obrigada pela visita!!! Bom domingo!

*** Juliana *** disse...

Ei teacher,tenha uma execelente semana!Bjus!