segunda-feira, dezembro 05, 2005

De dentro para fora.

“Ai dos corações tímidos, das mãos sem vigor”. (Eclesiástico, 2, 14, do texto grego)

E eis que me encontro de novo à beira do soco, na iminência do golpe.
Eis que retorna a cena clichê em meu surrado filme cotidiano: Eu, puto e impotente.
A angústia virando frustração, que vira revolta, que se decanta em raiva, a raiva que desce para os músculos, que somatiza no corpo a expressão impassível da fúria. O olhar inacessível, o cenho fechado, o verbo irascível engatilhado na ponta-da-língua.
Olho a cena e me irrita a impassividade com que os objetos encaram minha angústia. Meus móveis, os mesmos; minhas roupas, as mesmas; as coisas... essas coisas que carrego nos bolsos, no ouvido, nas mãos, essas coisas que não sabem de nada. Ignoram, as coisas, aquilo que acontece dentro de mim quando o amor me falta, quando a minha carência grita na imensidão deserta do cotidiano.
O telefone, esse maldito, não pronuncia palavra para me salvar, impiedosamente inerte, quieto, apagado, escravizando minha ansiedade na negativa de cada segundo.
O silêncio afronta a minha dor.
Silêncio do mundo, grito da alma.
Arrebento minha mão, mas não entrego meu corpo à solidão. E antes que nele não reste mais uma gota sequer de vida, não paro de bater nas coisas. Este é o lado louco que não ouso esconder de mim mesmo. Meu espírito é punk.
Talvez, esvaziando meu corpo, não me reste mais ânimo para tristeza.
Meu soco não é um soco vândalo, não é ignorância incivilizada. É o esperneio do coração esmagado, é reação.
Acerto paredes, portas, travesseiro, cama, móveis, chão. Acerto aquilo que me afronta, a quietude, o silêncio, a inércia das coisas. Destruo a pele, acabo com a higidez dos nervos, com a simetria das articulações, e tudo isso me acaba um pouco.
Mas minha tristeza permanece e se agrava. Ela se apura e, no corpo vazio, se transforma em auto-compaixão, e é então que meu ridículo atinge o seu nível mais alto, quando caído no chão, transpirando, com os músculos tensos, a imagem do rebelde ensandecido cai por terra e o desespero fica mais nítido em meus olhos que choram, em minha boca que baba.
Meu corpo está desnutrido de amor, é essa minha verdade.
O abandono de quem se apaixona é uma espiral em queda livre. Estou caindo agora, estou pagando a alma. Estou no inferno.
Meu disco-rígido está cheio. Travado. Em minha cabeça não cabe mais nada além da minha dor. Qualquer palavra alheia me fere, porque não é para mim e qualquer palavra agora seria alheia a tudo o que me dói, portanto não quero palavras, elas me irritam, machucam, me enchem com toda essa dialética inútil, vazia.
Assim, vejo a contradição impensável em mim: amor e desespero. Algo absurdo: preciso desesperadamente da mesmice do amor.
Não sei o quê, nem quando, mas algo em mim está incuravelmente velho e caminha para a morte.
Cansado, esgotado chorando, junto o que resta de vida em minhas células levo meus olhos à janela, que escancaro para espancar o mundo com meu olhar “punk”, mas é o mundo que me espanca com sua insensibilidade.

Viração

Vejo nuvens fechando o cerco sobre a cidade. O formigueiro se apavora.
Isso me diverte. Nesses momentos em que o humano treme diante da realidade da natureza, não há qualquer hiprocrisia. O tempo se fecha e chove sem perguntar à cidade se ela está pronta, se suas ruas não serão inundadas, se as pessoas estão com guarda-chuvas, se as janelas foram fechadas, se as roupas estão no varal, se sabem dirigir na pista molhada.
Impressionante como a dor me dá esta sensação torpeza e bem-estar. É como se minha fragilidade me confortasse.
Tem algo errado. Algo muito errado com esse meu coração.
As coisas fazem cada vez menos sentido para mim.
Sempre me senti à margem do mundo, mas agora, sem amor, sinto que não há mais motivo para ficar onde estou e ser quem finjo.
A rotina faz de mim algo bem distante do que sou, e a secura do coração deixa mais sensível o incômodo dessa existência articulada.
Sou animal contido em um teatro sem verdade.
Quero fugir, quero sair daqui, quero ser eu, embora não faça a menor idéia de como seja isso. Preciso muito ver minha alma de fora para dentro, enxergar aquilo que escreve minha própria essência. Preciso sair de mim para saber quem sou. Não sei para onde nem como, mas preciso sair.

Só esta viração me traz alento, pairando sobre tudo estão as nuvens. Elas, sim, me fazem bem. Elas se chocam e fazem tremer o chão, jogam descargas elétricas aleatoriamente pelo espaço, avacalham com a rotina.

Como amo esta viração.
Como adoro esta ameaça de tempestade, esta incerteza, esta ruptura do normal.
Como adoro esta contra-cultura natural, como me alegra a verdade das coisas, dos fatos, daquilo que simplesmente existe
Tiro a gravata. Tiro a camisa e, botão a botão, sigo mirando o rosto que vejo no espelho. Aquilo sou eu.
Quão estranho pareço para mim.
Abro todas as janelas. quero que a chuva entre e estrague com tudo, quero que a chuva me salve de toda esta artificialidade.
A chuva ainda é só vento. Ventania desordenada que espalha todos os papéis da minha pasta estatelada no chão.
Agora somos o vento e eu contra o resto do mundo.

Chuva

Sinto-me bem melhor com a possibilidade de chuva.
Mas o tempo ainda insiste em gotejar ao meu redor, ditando o compasso em que anda o mundo e desdenhando da insignificância da minha revolta. O tempo me tortura com a monotonia dos segundos fugindo um a um em irritante constância.
Não tenho mais forças para brigar. Sequer tenho ânimo para chorar. Deixo que as coisas simplesmente aconteçam agora. Só minha passividade me acalma.
A chuva vem, este é o meu consolo, ela vem quebrar o discurso imperativo do cotidiano.
Meu amor está todo na chuva agora. As nuvens descarregam meus medos.
Ponho o rosto na janela para sentir o impacto das gotas grandes e fortes.
Com as mãos trêmulas, feridas, encosto a mesa na janela e sento-me escrevendo tudo o que me vem à cabeça, parece uma confissão, mas é desarmonia humana:

“Aqui jaz minha alma.
Aqui, neste papel molhado, borrado, escrevi meus últimos versos de amor e os entreguei à tempestade para que selasse a verdade do momento e manchasse aquilo que já estava encharcado de sangue: a palavra.
Aqui despejei quase todo o resto de dor que ainda tinha no peito. A dor era muita porque o amor também o era.
Aqui entreguei os segredos que se escondiam entre artérias e os músculos, que vagavam na corrente sanguínea e voltava ao coração. Meus segredos mais íntimos, meu amor mais visceral.
Este amor morreu à míngua, agonizando, estrebuchando no meu corpo que já se rebelou e agora está contido pela impotência e pela dor.
Este papel resume, na verdade, a desilusão de toda uma vida: o próprio amor.
Daqui, do alto do meu apartamento, da réstia de cidade que minha janela me permite. Daqui, do trono da minha mais absoluta desolação, o amor me parece ainda mais distante”.


E do alto da minha miséria consigo distinguir, no horizonte do meu espírito, aquilo que me incomoda. Vejo, ao meu redor, uma aquarela com as pessoas que circulavam em torno da minha vida. Eu só consigo ver a dor delas, eu só vejo seu incômodo. Eu as vejo feridas, maculadas pela brutalidade do amor, pela violência com que o amor é retirado e colocado em suas vidas.
Como compreendo, neste breve momento, a complexidade de conseqüências que envolve o amor. Como enxergo longe e vejo com tanta nitidez a densidade trazida pelo amor.
E tudo dói tanto que não imagino como pensar em outras coisas.
Não compreendo, neste momento absurdo, como tenho conseguido agir por todos estes dias como se outra coisa existisse em mim além de um amor machucado.



A tempestade minguou, e também o seu ânimo.
A coisa foi se afastando aos poucos e à medida que se ia, as palavras se apagavam do pensamento e a vontade de declarar qualquer coisa se perdeu entre a cabeça e as mãos.
Os dedos perderam a vontade e os olhos fugiram, alheios, serenos, passivos, absorvendo, sem dar por isso, o conteúdo daquela calmaria. A cidade desolada, o silêncio, a água brilhando em todos os cantos. Tudo lavado, tudo quieto, tudo resignado pela imperatividade das vontades do céu.
Foi abandonando o transe e a auto-compaixão. Toda aquela aquela densidade sentimental se afastou dele em câmera lenta, tornava-se secundária ao vazio de idéias e de sentidos.
Aos poucos, o pensamento foi abandonando o ego, se desligando da auto-compaixão e se tornando algo bem mais leve, algo que pedia um blues.
Ligou o blues, ouviu “Secos e Molhados”, baixinho. O som expandia-se pela sala em total conformidade com o momento. Por um instante, as coisas todas pareceram certas.
Com a música, o quarto ficou mais poético, a chuva mais melódica e a noite ficou azul. Uma leveza aconchegante tomou conta de seus movimentos e acomodou sua alma...
Dormiu ouvindo blues.

2 comentários:

Bira disse...

Punk, intenso, mto bom

Giulia disse...

Uri, meu Deus, vc. voltou? que isso, menino, e pelo visto, voltou renascido das cinzas, hein? que intensidade, que descrição de um momento... passou aquela tristeza, esqueceu? se renovou? cara, escreve, escreve, escreve... não pare nunca...e, se possível, venha me ver também...quero saber das andadas de bike, da moto... de você, caramba que saudade!