quarta-feira, janeiro 25, 2006

Oração vivida

Invado a madrugada lendo a noite com olhos tranquilos.
Pela janela, até a cidade me chega mais íntima. As luzes mais leves, os carros mais calmos.
Meu amor, que dorme na minha cama, desperta entre um sonho e outro, rouba meus olhos do livro e me estende o braço, preguiçosa, balbuciando com voz de sono que é para eu abraçá-la e dormir também.
A ordem impera com lógica indiscutível. Há tanta poesia neste momento que o livro perde qualquer sentido.
Ia fazer uma oração também, mas restou desnecessário. Há tanto amor aqui, que posso ver Deus sorrindo para nós e dizendo: boa noite!
Amém.

terça-feira, janeiro 24, 2006

Estrada

(Trilha sonora: Secos e Molhados)
Quando caio na estrada é como se estivesse pedindo licença da minha própria vida. Abandono minha carcaça, crio meu próprio conceito de tempo, renovo o espírito e jogo fora os pensamentos que são velhos.
Há magia em uma viagem qualquer.
A mim não importa estar indo a um outro país ou ao centro da cidade. O que conta é o espírito que carrego quando saio de casa para ver as coisas. Sair é bom. Andar é bom.
Adoro andar pelo mundo, guiar meus olhos onde eles nunca estiveram, apreciar o belo e o feio, vencer distâncias, alturas, usar meu corpo para aquilo que lhe é tão primário e tão óbvio: o movimento.
Olhar paisagens me diverte. Seja pelo pára-brisa do carro, pela janela de um ônibus, de um avião, na amurada de uma balsa ou, simplesmente, de dentro do meu corpo em movimento, em uma bicicleta ou à pé, no alto de uma montanha, em qualquer lugar do planeta.
O que importa, em qualquer canto, é ser expectador do mundo, assistir a este espetáculo imenso.
Há algo muito forte na estrada. Algo que transforma, algo que transcende.
Minha vida é mais minha na estrada.

O movimento arranha minha alma com uma vontade absurda de sair, tira meu sono e incomoda meu corpo o tempo todo. Minha imaginação quer me arrastar, quer me levar para a estrada de novo, quer me lembrar o quanto sou autêntico quando lanço os pés no rumo de algo novo.

Mas a estrada alimenta a saudade e a saudade catalisa a paixão.
Então, haverão de perguntar, com fundamento: porque da estrada, então?
Para sentir a paixão mais forte. Para bebê-la em grandes doses, em um lugar bonito do mundo, com os olhos infestados de estrelas, com a cabeça mergulhada no universo, viajando na órbita dos beijos mais intensos, na infinitude das melhores lembranças.
Eu volto. Trarei a saudade tatuada na pele e a paixão renovada.

quinta-feira, janeiro 19, 2006

Jerônimo

Sim, eu penso em saltar por janelas.
Não, não sou suicida, nem sou daquelas pessoas que fazem questão de chamar a atenção sobre si mesmas.
Sou tímido.
Essa idéia sempre me vinha à cabeça quando estava em ambientes excessivamente formais, em que as pessoas ficam contidas aos gestos uniformes, aos movimentos comedidos, ao silêncio. Mas também já pensei em saltar de janelas de festas, de sacadas, de coberturas.
Eu olhava a janela, o espaço em volta, e me imaginava arrancando o paletó, sério, contando os passos, indiferente, e com o olhar decidido e um sorriso sarcástico, correria alguns passos e estouraria a vidraça, voando junto com os fragmentos de vidro, se vidro houvesse.
Um psicólogo diria, como já disse, que isso seria a "expressão inconsciente de um anseio em romper com a própria timidez, uma forma de rebeldia contra a opressão que o convívio provoca em mim".
Não, doutor, não é isso! Eu sei bem o que é. E os psicólogos não me dizem nada, nem os psiquiatras e nem os charlatães.
Quero me divertir, só isso. Quero tirar sarro com a hipnose da mesmice.
Sempre quis saltar por diversão, para me fingir de herói, ver quantos giros eu conseguiria dar no ar ou quantas piruetas ou quantas coisas meus olhos conseguiriam distinguir na queda livre.
Agora mesmo eu saltaria dessa janela que está bem na minha frente, se não estivesse preso a essas algemas e com os meus pés amarrados e a cabeça pesada pelos remédios.
Só a queda livre me libertaria agora, ou a morte. Mas as duas alternativas parecem unidas e não posso por minhas próprias mãos, matar o maldito segredo que carrego, que não se revela para mim, mas não me abandona.
Tentei dizer isso à doutora, mas é como se estivesse com a cabeça embaixo d'água produzindo sons indistintos, me afogando nas palavras que não saíam da minha bôca.
Como não entendesse nada do que dizia, ela mandou que me dessem outra dose de tranquilizante e aqui estou de novo, dopado, diante da janela aberta, amarrado em minha mísera vida, sendo Jerônimo.
(Ver o post Cena, de 05/01/2006)

quinta-feira, janeiro 12, 2006

Razão subvertida

Ontem perdi a hora com todas as gotas de tempo.
E as gotas caíram em minha alma, torturando-a com uma constância monótona.
Pingaram uma a uma na noite escura, imitaram a chuva fina que caía fora da casa velha.
Caíram, gota-a-gota enquanto eu estava lá, deitado, amarrado a uma distância absurda, contando cada pingo no telhado, cada mínima dose de tempo.
E aquele que seria o único remédio para a tortura do tédio em minha insônia
estava longe.
Mas mesmo tão longe, eu podia vê-la, ela, o remédio.
Ou talvez o próprio delírio, mas ela.
Meu mal ou minha cura.
Estava tão longe daquele sorriso
que a distância acabou por se encurtar naquele meu desespero de saudade,
fechei os olhos ignorando a escuridão e o bater das gotas.
Logo percebi que a chuva mudava de tom,e o novo timbre que ouvia se parecia com a voz que ela me dera ao telefone alguns minutos atrás.
Entrei na voz dela, na imaginária voz que gravei em meus sentidos.
De olhos fechados,logo cheguei à sua boca, e nesse delírio de distância e saudade,
acabei beijando o absurdo e sentindo o gosto da boca dela.
E como ela me beijava...
ela me beijava como se sentisse a mesma saudade, como se, mesmo a uma distância tão grande, ela me visse navegando no escuro, procurando um sonho em que estivéssemos juntos, entrando comigo naquela rebeldia de tempo e espaço.
Criamos o nosso mundo ali, naquele lapso do ante-sono, entre a razão e o delírio.
Até que o sono arrebatou meu pensamento e o sonho fugiu ao meu controle, e aquele instante evaporou como névoa, mas eu me lembro muito bem!
Que antes da intervenção da lógica, em sua ira de ver rompida sua lei, em sua obcessão de querer tudo certo e ordenado, antes que essa maníaca afastasse aquele portal mágico que criei,eu sei que estive com ela e que dormimos juntos.
Sei disso com muita certeza, porque acordei com o sol sorrindo, e o mundo irradiava a mesma luz que vi no sorriso dela.
Tudo isso aconteceu ontem à noite e eu me lembro muito bem.

quinta-feira, janeiro 05, 2006

Cena

Por quatro noites seguidas, dois homens fortes de cara fechada desceram as escadas e seguiram o corredor do segundo piso até o final.
Ao fim da quarta noite, como se encontrassem o objeto de tão obstinada busca, levantaram a cabeça do homem que se sentava próximo à porta do último quarto, o que estava de pé gritou "jerônimo? esta é a sua sentença" e apontou uma arma brilhante que disparou duas balas de chumbo para o interior da cabeça do homem sentado.
Ao passarem por mim, chutaram com desdém minhas pernas mortas e cuspiram na minha cara palavras de repulsa enquanto eu gaguejava assustado pelo barulho dos tiros.
O cuspe caiu nas faixas que enrolavam minha cabeça que doía por causa da lobotomia mal-sucedida.
O que os homens não ouviram era o que eu tentava dizer quando repetia "ah-ah-ah" freneticamente sem produzir qualquer palavra.
Eu tentava dizer a eles que Jerônimo sou eu. Mas minha sentença não foi cumprida e tenho que penar esta vida e este segredo depois da morte que não tive.

quarta-feira, janeiro 04, 2006

Terra

Estive lá.
Pisei na terra.
Revi os vivos e os mortos. Vi a mim mesmo, criança, quando ainda tinha medo e fascínio com aquilo que me era novo: o mundo.
Perdi-me no tempo e segui andando a esmo confundindo o caminhar do tempo de agora com a memória do eu-menino, onde nasci, onde moram meus pais, onde todos os meus ancestrais estão enterrados.
Eu me vi seguindo os passos de meu avô, os passos largos e ritmados do alazão montado por seu Augusto, debaixo do chapéu “três X” e enrolado em uma capa “colonial” que cobria toda a garupa do animal.
Era ele, o meu avô, o homem que tinha tempo de ouvir um menino. Eu era o menino que gostava de ouvir o homem que contava estórias de um tempo que não era o meu. Um homem que tinha um furo no queixo, que debochava da seriedade dos outros homens, meu avô.
Senti o frio deste dia distante, quando andava sobre um cavalo que pateava cauteloso na lama fina da estrada, e sob uma neblina de gelar os ossos. Era eu, adolescente, seguindo os passos de Vovô Augusto em direção à sede do seu pedaço de terra naquele sertão de meu Deus.
Era eu aprendendo o desconforto e o prazer de cavalgar pelo mundo, de se deslocar daquela forma tão primitiva e verdadeira. A honestidade de respeitar o ritmo do tempo, de alçar cada passo, movendo cada músculo e pagando, com esforço, cada palmo do caminho.
Ali as lições não eram faladas, eram vividas. E todo o desassossego da alma humana se resumia a um cavalgar lento, contra a vontade do tempo e contra toda precaução.
Lá as estradas eram longas, tortuosas e perigosas. Lá estávamos à mercê da natureza.
Aprendi, na passividade do rosto do velho Augusto, que sempre há algo a fazer e que a vida nos pretende sérios para carregar os fardos e fortes para transcender a dor. Aprendi que dois homens andando juntos estão a um só tempo solitários com suas vidas e solidários no caminhar.
Era eu aprendendo que a vida, ali, se dividia em uma, duas, três; porque eu, sendo filho de meu pai, filho do meu avô, era uma coisa só, três elos em um, e já era a promessa de continuidade, sina, saga e destino.
Vovô Augusto guiava os passos porque sabia o caminho e o ritmo que a vida impõe. Eu seguia atrás, calado e atento. Não haviam palavras que se acomodassem ao espírito nem felicidade que se aconchegasse à alma atordoada pela neblina e pelo frio.
Enquanto rompíamos os sons da chuva na terra e recebíamos o calor vivo do suor dos animais, éramos pura concordância. Enquanto estive ali no lugar de meu pai, vi meu filho me seguindo, e logo vi meu neto, como aprendiz daquele que aprendeu comigo.
Eu era a última mão viva da minha tríade, e neste momento via-me de longe, sendo, a um só tempo: pai, filho e avô.
Naqueles passos, eu vi minha dinastia e me senti feliz. Vi o pioneiro, vi seus gestos e sua força, e o caminho já não importava mais.
Agora era meu pai quem guiava o caminho e meu avô, neste então, já não vivia mais. E eu já tinha a ciência do caminho, o que aprendia agora era a coragem com que deveria guiá-lo, a consciência do controle, a sabedoria de ser livre e senhor das rotas que a vida oferece.
No meu rosto já estavam esculpidos a saudade da perda, a seriedade do trabalho e as cicatrizes de paixão. E eu tinha tão poucos anos.
O tempo seguiu sua linha e agora meu pai era o último elo vivo, e logo seria eu. Mas a certeza da morte não me trazia dor, só uma resignação muda.
Senti-me pronto a olhar para frente, senti-me apto a gerar um filho e continuar a tarefa de meus ancestrais.
Aquele chão é casa de meu pai e do pai de meu pai. É onde brotaram a força e a fibra que compõe minha essência, é onde meu passado, presente e futuro se fundem de forma misteriosa e bonita; é onde minhas lágrimas me trazem conforto e maturidade, onde sou raiz.
Pisando naquela terra, tive a certeza de que sempre voltaria, e um dia traria meu filho, e que o guiaria na cavalgada muda, para que aprendesse também o verdadeiro sentido da vida.

sábado, dezembro 10, 2005

Momento absurdo

Naquele beijo, devorou o mundo.
Comeu, naquela ânsia de bocas, todas as coisas que lhe foram negadas durante toda a sua vida.
Beijou bebendo água com sede incontrolável.
Beijou à toda paixão, à todo instinto, à toda loucura.
Naquele beijo, o instante foi nu, e a vida, real.
Os corpos, as bocas, a saliva, a ânsia, o instinto, a fome, a paixão.
Tudo foi tão nítido e tão certo.
O tempo parou naquele beijo faminto.
E era seu, o beijo. Era seu aquele tempo parado, aquela magia impensável.
A pele incandescente e o corpo eloqüente na dialética hormonal.
Dizia paixão em cada gesto e cada toque. A febre irradiava, o sangue explodia nas veias.

E ela bebia o beijo também, no mesmo manancial e com a mesma sede.
E sua paixão enfim vazou todas as regras e medos.
E aquele instante tão concreto e tão denso envolveu-a de tal maneira podia perceber o tempo parando e a gravidade se anulando.
Flutuva, mergulhada no beijo.
A pele respondeu à febre dele e se incendiou também, e os pelos eriçaram dizendo que a pele viva e elétrica compreendia aquela linguagem dos corpos.
Ergueu-se na ponta dos pés e os olhos, fechados viram profusões de vermelho.

Eram um, eram a pura perfeição.

As lágrimas colavam o cabelo na face e a saliva recendia aquele cheiro que carregariam naquele canto da memória responsável pelas lembranças de nó na garganta e pernas trêmulas.
Aquele beijo era infinito, duraria por toda a vida e pelas vidas que viessem ainda depois daquela.
Aquele beijo era um totem, um sinal sagrado de que suas vidas estavam ligadas para sempre.
Aquele beijo era a razão do antes e do depois, numa síntese de agora.

Viveram uma vida inteira naquele devorar de bocas.
Amaram-se, casaram-se, fizeram filhos, planos, sonhos, viagens, jogaram pedras em lagos, sentaram em bancos de praça e, como um caleidoscópio girando em alta velocidade, nunca puderam compreender ao certo todas as imagens que lhe passavam pela cabeça.

Beijaram-se e foram pura paixão e naquele infinito instante à margem do tempo.
A vida, ali, soube à perfeição.

segunda-feira, dezembro 05, 2005

De dentro para fora.

“Ai dos corações tímidos, das mãos sem vigor”. (Eclesiástico, 2, 14, do texto grego)

E eis que me encontro de novo à beira do soco, na iminência do golpe.
Eis que retorna a cena clichê em meu surrado filme cotidiano: Eu, puto e impotente.
A angústia virando frustração, que vira revolta, que se decanta em raiva, a raiva que desce para os músculos, que somatiza no corpo a expressão impassível da fúria. O olhar inacessível, o cenho fechado, o verbo irascível engatilhado na ponta-da-língua.
Olho a cena e me irrita a impassividade com que os objetos encaram minha angústia. Meus móveis, os mesmos; minhas roupas, as mesmas; as coisas... essas coisas que carrego nos bolsos, no ouvido, nas mãos, essas coisas que não sabem de nada. Ignoram, as coisas, aquilo que acontece dentro de mim quando o amor me falta, quando a minha carência grita na imensidão deserta do cotidiano.
O telefone, esse maldito, não pronuncia palavra para me salvar, impiedosamente inerte, quieto, apagado, escravizando minha ansiedade na negativa de cada segundo.
O silêncio afronta a minha dor.
Silêncio do mundo, grito da alma.
Arrebento minha mão, mas não entrego meu corpo à solidão. E antes que nele não reste mais uma gota sequer de vida, não paro de bater nas coisas. Este é o lado louco que não ouso esconder de mim mesmo. Meu espírito é punk.
Talvez, esvaziando meu corpo, não me reste mais ânimo para tristeza.
Meu soco não é um soco vândalo, não é ignorância incivilizada. É o esperneio do coração esmagado, é reação.
Acerto paredes, portas, travesseiro, cama, móveis, chão. Acerto aquilo que me afronta, a quietude, o silêncio, a inércia das coisas. Destruo a pele, acabo com a higidez dos nervos, com a simetria das articulações, e tudo isso me acaba um pouco.
Mas minha tristeza permanece e se agrava. Ela se apura e, no corpo vazio, se transforma em auto-compaixão, e é então que meu ridículo atinge o seu nível mais alto, quando caído no chão, transpirando, com os músculos tensos, a imagem do rebelde ensandecido cai por terra e o desespero fica mais nítido em meus olhos que choram, em minha boca que baba.
Meu corpo está desnutrido de amor, é essa minha verdade.
O abandono de quem se apaixona é uma espiral em queda livre. Estou caindo agora, estou pagando a alma. Estou no inferno.
Meu disco-rígido está cheio. Travado. Em minha cabeça não cabe mais nada além da minha dor. Qualquer palavra alheia me fere, porque não é para mim e qualquer palavra agora seria alheia a tudo o que me dói, portanto não quero palavras, elas me irritam, machucam, me enchem com toda essa dialética inútil, vazia.
Assim, vejo a contradição impensável em mim: amor e desespero. Algo absurdo: preciso desesperadamente da mesmice do amor.
Não sei o quê, nem quando, mas algo em mim está incuravelmente velho e caminha para a morte.
Cansado, esgotado chorando, junto o que resta de vida em minhas células levo meus olhos à janela, que escancaro para espancar o mundo com meu olhar “punk”, mas é o mundo que me espanca com sua insensibilidade.

Viração

Vejo nuvens fechando o cerco sobre a cidade. O formigueiro se apavora.
Isso me diverte. Nesses momentos em que o humano treme diante da realidade da natureza, não há qualquer hiprocrisia. O tempo se fecha e chove sem perguntar à cidade se ela está pronta, se suas ruas não serão inundadas, se as pessoas estão com guarda-chuvas, se as janelas foram fechadas, se as roupas estão no varal, se sabem dirigir na pista molhada.
Impressionante como a dor me dá esta sensação torpeza e bem-estar. É como se minha fragilidade me confortasse.
Tem algo errado. Algo muito errado com esse meu coração.
As coisas fazem cada vez menos sentido para mim.
Sempre me senti à margem do mundo, mas agora, sem amor, sinto que não há mais motivo para ficar onde estou e ser quem finjo.
A rotina faz de mim algo bem distante do que sou, e a secura do coração deixa mais sensível o incômodo dessa existência articulada.
Sou animal contido em um teatro sem verdade.
Quero fugir, quero sair daqui, quero ser eu, embora não faça a menor idéia de como seja isso. Preciso muito ver minha alma de fora para dentro, enxergar aquilo que escreve minha própria essência. Preciso sair de mim para saber quem sou. Não sei para onde nem como, mas preciso sair.

Só esta viração me traz alento, pairando sobre tudo estão as nuvens. Elas, sim, me fazem bem. Elas se chocam e fazem tremer o chão, jogam descargas elétricas aleatoriamente pelo espaço, avacalham com a rotina.

Como amo esta viração.
Como adoro esta ameaça de tempestade, esta incerteza, esta ruptura do normal.
Como adoro esta contra-cultura natural, como me alegra a verdade das coisas, dos fatos, daquilo que simplesmente existe
Tiro a gravata. Tiro a camisa e, botão a botão, sigo mirando o rosto que vejo no espelho. Aquilo sou eu.
Quão estranho pareço para mim.
Abro todas as janelas. quero que a chuva entre e estrague com tudo, quero que a chuva me salve de toda esta artificialidade.
A chuva ainda é só vento. Ventania desordenada que espalha todos os papéis da minha pasta estatelada no chão.
Agora somos o vento e eu contra o resto do mundo.

Chuva

Sinto-me bem melhor com a possibilidade de chuva.
Mas o tempo ainda insiste em gotejar ao meu redor, ditando o compasso em que anda o mundo e desdenhando da insignificância da minha revolta. O tempo me tortura com a monotonia dos segundos fugindo um a um em irritante constância.
Não tenho mais forças para brigar. Sequer tenho ânimo para chorar. Deixo que as coisas simplesmente aconteçam agora. Só minha passividade me acalma.
A chuva vem, este é o meu consolo, ela vem quebrar o discurso imperativo do cotidiano.
Meu amor está todo na chuva agora. As nuvens descarregam meus medos.
Ponho o rosto na janela para sentir o impacto das gotas grandes e fortes.
Com as mãos trêmulas, feridas, encosto a mesa na janela e sento-me escrevendo tudo o que me vem à cabeça, parece uma confissão, mas é desarmonia humana:

“Aqui jaz minha alma.
Aqui, neste papel molhado, borrado, escrevi meus últimos versos de amor e os entreguei à tempestade para que selasse a verdade do momento e manchasse aquilo que já estava encharcado de sangue: a palavra.
Aqui despejei quase todo o resto de dor que ainda tinha no peito. A dor era muita porque o amor também o era.
Aqui entreguei os segredos que se escondiam entre artérias e os músculos, que vagavam na corrente sanguínea e voltava ao coração. Meus segredos mais íntimos, meu amor mais visceral.
Este amor morreu à míngua, agonizando, estrebuchando no meu corpo que já se rebelou e agora está contido pela impotência e pela dor.
Este papel resume, na verdade, a desilusão de toda uma vida: o próprio amor.
Daqui, do alto do meu apartamento, da réstia de cidade que minha janela me permite. Daqui, do trono da minha mais absoluta desolação, o amor me parece ainda mais distante”.


E do alto da minha miséria consigo distinguir, no horizonte do meu espírito, aquilo que me incomoda. Vejo, ao meu redor, uma aquarela com as pessoas que circulavam em torno da minha vida. Eu só consigo ver a dor delas, eu só vejo seu incômodo. Eu as vejo feridas, maculadas pela brutalidade do amor, pela violência com que o amor é retirado e colocado em suas vidas.
Como compreendo, neste breve momento, a complexidade de conseqüências que envolve o amor. Como enxergo longe e vejo com tanta nitidez a densidade trazida pelo amor.
E tudo dói tanto que não imagino como pensar em outras coisas.
Não compreendo, neste momento absurdo, como tenho conseguido agir por todos estes dias como se outra coisa existisse em mim além de um amor machucado.



A tempestade minguou, e também o seu ânimo.
A coisa foi se afastando aos poucos e à medida que se ia, as palavras se apagavam do pensamento e a vontade de declarar qualquer coisa se perdeu entre a cabeça e as mãos.
Os dedos perderam a vontade e os olhos fugiram, alheios, serenos, passivos, absorvendo, sem dar por isso, o conteúdo daquela calmaria. A cidade desolada, o silêncio, a água brilhando em todos os cantos. Tudo lavado, tudo quieto, tudo resignado pela imperatividade das vontades do céu.
Foi abandonando o transe e a auto-compaixão. Toda aquela aquela densidade sentimental se afastou dele em câmera lenta, tornava-se secundária ao vazio de idéias e de sentidos.
Aos poucos, o pensamento foi abandonando o ego, se desligando da auto-compaixão e se tornando algo bem mais leve, algo que pedia um blues.
Ligou o blues, ouviu “Secos e Molhados”, baixinho. O som expandia-se pela sala em total conformidade com o momento. Por um instante, as coisas todas pareceram certas.
Com a música, o quarto ficou mais poético, a chuva mais melódica e a noite ficou azul. Uma leveza aconchegante tomou conta de seus movimentos e acomodou sua alma...
Dormiu ouvindo blues.

quarta-feira, setembro 22, 2004

Estrada, coração e alma.

Quando o coração perde o rumo, o corpo fica perdido, vagando pelo mundo, pousando de lugar em lugar, transportando uma alma inconsciente, sem vida, sem alma.
Quando se perde a razão do amor, a vida se torna incômoda e estranha demais.
Mas é a vida empurrando para frente, é a alma querendo renascer, é o corpo correndo feito louco, é o coração sufocado, querendo oxigênio.
A alma, passageira do corpo, precisa de distração, quer lugares novos, quer provar o gosto da vida bem longe das paredes que já viram tanto choro e tanta solidão.

Faço as malas todos os dias, e cada dia escolho algo em mim para levar e para deixar.
Planejo, cada dia, a hora de rasgar os planos e tomar o rumo, as encruzilhadas em que permitirei hesitar e o caminho que pretendo inovar.
Se aqui o coração se oprime, melhor curá-lo bem longe, para evitar que o sonho se dissolva e que se desacredite no amor.
Não, o amor não, o amor não pode morrer. Ele precisa de irrealidade e sonho, poesia e música, não de dor.
É melhor fugir então,é melhor que as lágrimas caiam na poeira,para que fiquem sempre para trás, é melhor que o pensamento, assim distante, ganhe novas formas.
No fim do caminho, pode ser que esteja o meu sorriso.
Portanto, peço ao tempo que passe bem depressa, pois a estrada tem pressa de mim e eu a quero.
Já vou!

domingo, julho 11, 2004

O intruso

Rua Guicurus. Centro do comércio atacadista de armarinhos de Belo Horizonte. Eixo quente dos puteiros, dos camelôs, dos trambiqueiros, dos cinemas pornô e do crack.
Putas diurnas de 15 reais, camelôs-traficantes, pessoas comuns, gigolôs, comerciantes, trabalhadores em busca de sexo. Um espetáculo esplêndido.
Um homem bêbado desafiava um golpista enquanto o intruso subia a calçada. Seu passo incerto e sem vontade, seu rosto esquálido com uma pequena cicatriz, talvez queda, talvez soco.
Ele era alheio, uma criatura semi-oculta que quase não se via. Parecia sentir-se expulso de tudo, até do bar, cuja porta lhe causou desejo e receio.
Talvez quisesse pedra, talvez nem quisesse mais nada.
Parou, olhou para o chão, não vi o que era. Olhou, olhou, abaixou-se, apanhou um “toco” de cigarro ainda aceso, quase no filtro. Um resto quase morto lhe pareceu um trago suculento.
Sentou-se lenta e debilmente encostando-se na parede, olhou para cima e me viu.
Olhou-me nos olhos, dilacerou-me a alma e, de súbito, me trouxe de volta ao mundo. Saí do transe como quem volta de um sonho estranho e então percebi-me existindo.
Eu, sendo alguém, não sabia o que fazer.
Naquele lapso, não houve nada que nos separasse. Nenhum preconceito, nenhuma aversão, nenhuma raiva, nenhuma dor, só o estranhamento.
Foi então que vi que estávamos na mesma calçada, no mesmo universo e na órbita do mesmo instante, ainda que fôssemos absolutamente estranhos.
Seu olhar não me pedia, não julgava, não temia, só olhava com assustado interesse. O meu, quis fugir.
O desconforto que senti me foi ainda mais estranho. Não sabia quem era eu, não sabia o que lhe revelar da minha imagem, não sabia o que lhe dizer do meu mundo e, na verdade, meu mundo já nem existia. Não era burguês, nem mau, nem bom, nem certo nem errado. Não conseguia condenar nem aceitar sua presença, quis ser indiferente. Desejei a aconchegante proteção da minha concepção social mesquinha, da minha pseudo-antropologia urbana.Não havia mais tempo agora, eu deveria agir.
Onde está meu mundo quando preciso? Onde estão meus sinais de casta e classe? O que eu fiz com minha armadura de indiferença e minha visão seletiva, onde está minha compaixão anestésica?
Não houve remédio, o desconcerto idiotizou meus gestos. Tornei-me fraco. Desviei os olhos como quem pede desculpas pela indiscrição. Fiquei inerte, impassível e absolutamente idiota.
Com o olhar, ele jogou por terra todas as minhas reflexões fugazes e recusou minha culpa neurótica. A humanidade estava sob nossas peles com a mesma intensidade e nenhum de nós sabia como lidar com ela. Ele e sua miséria, eu e minha riqueza.
Inútil e desnecessário, saí da sua vida. Ele não, ele ficou sentado em todos os cantos do meu pensamento, com seus olhos apáticos e curiosos, procurando alguém que eu também não via, procurando por mim.
Havia alguém em mim que se incomodava profundamente com a miséria alheia, mas quem ele era?
Até então meu pensamento se contentava em elaborar discursos e construir ideais, mas o que eu havia realizado? Nunca distribuí sopa, nunca fiz doações para campanhas do agasalho, nunca doei um quilo de alimento não perecível, nunca tomei nenhum destes entorpecentes de culpa.
Nunca me dispus a ouvir estas pessoas que sofrem, a fazer algo por elas, a transformar verbo em gesto. Sequer conseguia olhá-las nos olhos.
A verdade é uma ressaca pesada. Sou hipócrita e meu discurso é podre e oco. Fujo da realidade.

Agora, revendo a cena, compreendo mais cruamente a minha natureza e vejo uma outra dimensão dos fatos. Todo o meu inquietamento social, todo o meu desassossego humano, toda a minha culpa mesquinha teriam se acalmado se tivesse simplesmente lhe comprado um cigarro.