Naquele beijo, devorou o mundo.
Comeu, naquela ânsia de bocas, todas as coisas que lhe foram negadas durante toda a sua vida.
Beijou bebendo água com sede incontrolável.
Beijou à toda paixão, à todo instinto, à toda loucura.
Naquele beijo, o instante foi nu, e a vida, real.
Os corpos, as bocas, a saliva, a ânsia, o instinto, a fome, a paixão.
Tudo foi tão nítido e tão certo.
O tempo parou naquele beijo faminto.
E era seu, o beijo. Era seu aquele tempo parado, aquela magia impensável.
A pele incandescente e o corpo eloqüente na dialética hormonal.
Dizia paixão em cada gesto e cada toque. A febre irradiava, o sangue explodia nas veias.
E ela bebia o beijo também, no mesmo manancial e com a mesma sede.
E sua paixão enfim vazou todas as regras e medos.
E aquele instante tão concreto e tão denso envolveu-a de tal maneira podia perceber o tempo parando e a gravidade se anulando.
Flutuva, mergulhada no beijo.
A pele respondeu à febre dele e se incendiou também, e os pelos eriçaram dizendo que a pele viva e elétrica compreendia aquela linguagem dos corpos.
Ergueu-se na ponta dos pés e os olhos, fechados viram profusões de vermelho.
Eram um, eram a pura perfeição.
As lágrimas colavam o cabelo na face e a saliva recendia aquele cheiro que carregariam naquele canto da memória responsável pelas lembranças de nó na garganta e pernas trêmulas.
Aquele beijo era infinito, duraria por toda a vida e pelas vidas que viessem ainda depois daquela.
Aquele beijo era um totem, um sinal sagrado de que suas vidas estavam ligadas para sempre.
Aquele beijo era a razão do antes e do depois, numa síntese de agora.
Viveram uma vida inteira naquele devorar de bocas.
Amaram-se, casaram-se, fizeram filhos, planos, sonhos, viagens, jogaram pedras em lagos, sentaram em bancos de praça e, como um caleidoscópio girando em alta velocidade, nunca puderam compreender ao certo todas as imagens que lhe passavam pela cabeça.
Beijaram-se e foram pura paixão e naquele infinito instante à margem do tempo.
A vida, ali, soube à perfeição.
sábado, dezembro 10, 2005
segunda-feira, dezembro 05, 2005
De dentro para fora.
“Ai dos corações tímidos, das mãos sem vigor”. (Eclesiástico, 2, 14, do texto grego)
E eis que me encontro de novo à beira do soco, na iminência do golpe.
Eis que retorna a cena clichê em meu surrado filme cotidiano: Eu, puto e impotente.
A angústia virando frustração, que vira revolta, que se decanta em raiva, a raiva que desce para os músculos, que somatiza no corpo a expressão impassível da fúria. O olhar inacessível, o cenho fechado, o verbo irascível engatilhado na ponta-da-língua.
Olho a cena e me irrita a impassividade com que os objetos encaram minha angústia. Meus móveis, os mesmos; minhas roupas, as mesmas; as coisas... essas coisas que carrego nos bolsos, no ouvido, nas mãos, essas coisas que não sabem de nada. Ignoram, as coisas, aquilo que acontece dentro de mim quando o amor me falta, quando a minha carência grita na imensidão deserta do cotidiano.
O telefone, esse maldito, não pronuncia palavra para me salvar, impiedosamente inerte, quieto, apagado, escravizando minha ansiedade na negativa de cada segundo.
O silêncio afronta a minha dor.
Silêncio do mundo, grito da alma.
Arrebento minha mão, mas não entrego meu corpo à solidão. E antes que nele não reste mais uma gota sequer de vida, não paro de bater nas coisas. Este é o lado louco que não ouso esconder de mim mesmo. Meu espírito é punk.
Talvez, esvaziando meu corpo, não me reste mais ânimo para tristeza.
Meu soco não é um soco vândalo, não é ignorância incivilizada. É o esperneio do coração esmagado, é reação.
Acerto paredes, portas, travesseiro, cama, móveis, chão. Acerto aquilo que me afronta, a quietude, o silêncio, a inércia das coisas. Destruo a pele, acabo com a higidez dos nervos, com a simetria das articulações, e tudo isso me acaba um pouco.
Mas minha tristeza permanece e se agrava. Ela se apura e, no corpo vazio, se transforma em auto-compaixão, e é então que meu ridículo atinge o seu nível mais alto, quando caído no chão, transpirando, com os músculos tensos, a imagem do rebelde ensandecido cai por terra e o desespero fica mais nítido em meus olhos que choram, em minha boca que baba.
Meu corpo está desnutrido de amor, é essa minha verdade.
O abandono de quem se apaixona é uma espiral em queda livre. Estou caindo agora, estou pagando a alma. Estou no inferno.
Meu disco-rígido está cheio. Travado. Em minha cabeça não cabe mais nada além da minha dor. Qualquer palavra alheia me fere, porque não é para mim e qualquer palavra agora seria alheia a tudo o que me dói, portanto não quero palavras, elas me irritam, machucam, me enchem com toda essa dialética inútil, vazia.
Assim, vejo a contradição impensável em mim: amor e desespero. Algo absurdo: preciso desesperadamente da mesmice do amor.
Não sei o quê, nem quando, mas algo em mim está incuravelmente velho e caminha para a morte.
Cansado, esgotado chorando, junto o que resta de vida em minhas células levo meus olhos à janela, que escancaro para espancar o mundo com meu olhar “punk”, mas é o mundo que me espanca com sua insensibilidade.
Viração
Vejo nuvens fechando o cerco sobre a cidade. O formigueiro se apavora.
Isso me diverte. Nesses momentos em que o humano treme diante da realidade da natureza, não há qualquer hiprocrisia. O tempo se fecha e chove sem perguntar à cidade se ela está pronta, se suas ruas não serão inundadas, se as pessoas estão com guarda-chuvas, se as janelas foram fechadas, se as roupas estão no varal, se sabem dirigir na pista molhada.
Impressionante como a dor me dá esta sensação torpeza e bem-estar. É como se minha fragilidade me confortasse.
Tem algo errado. Algo muito errado com esse meu coração.
As coisas fazem cada vez menos sentido para mim.
Sempre me senti à margem do mundo, mas agora, sem amor, sinto que não há mais motivo para ficar onde estou e ser quem finjo.
A rotina faz de mim algo bem distante do que sou, e a secura do coração deixa mais sensível o incômodo dessa existência articulada.
Sou animal contido em um teatro sem verdade.
Quero fugir, quero sair daqui, quero ser eu, embora não faça a menor idéia de como seja isso. Preciso muito ver minha alma de fora para dentro, enxergar aquilo que escreve minha própria essência. Preciso sair de mim para saber quem sou. Não sei para onde nem como, mas preciso sair.
Só esta viração me traz alento, pairando sobre tudo estão as nuvens. Elas, sim, me fazem bem. Elas se chocam e fazem tremer o chão, jogam descargas elétricas aleatoriamente pelo espaço, avacalham com a rotina.
Como amo esta viração.
Como adoro esta ameaça de tempestade, esta incerteza, esta ruptura do normal.
Como adoro esta contra-cultura natural, como me alegra a verdade das coisas, dos fatos, daquilo que simplesmente existe
Tiro a gravata. Tiro a camisa e, botão a botão, sigo mirando o rosto que vejo no espelho. Aquilo sou eu.
Quão estranho pareço para mim.
Abro todas as janelas. quero que a chuva entre e estrague com tudo, quero que a chuva me salve de toda esta artificialidade.
A chuva ainda é só vento. Ventania desordenada que espalha todos os papéis da minha pasta estatelada no chão.
Agora somos o vento e eu contra o resto do mundo.
Chuva
Sinto-me bem melhor com a possibilidade de chuva.
Mas o tempo ainda insiste em gotejar ao meu redor, ditando o compasso em que anda o mundo e desdenhando da insignificância da minha revolta. O tempo me tortura com a monotonia dos segundos fugindo um a um em irritante constância.
Não tenho mais forças para brigar. Sequer tenho ânimo para chorar. Deixo que as coisas simplesmente aconteçam agora. Só minha passividade me acalma.
A chuva vem, este é o meu consolo, ela vem quebrar o discurso imperativo do cotidiano.
Meu amor está todo na chuva agora. As nuvens descarregam meus medos.
Ponho o rosto na janela para sentir o impacto das gotas grandes e fortes.
Com as mãos trêmulas, feridas, encosto a mesa na janela e sento-me escrevendo tudo o que me vem à cabeça, parece uma confissão, mas é desarmonia humana:
“Aqui jaz minha alma.
Aqui, neste papel molhado, borrado, escrevi meus últimos versos de amor e os entreguei à tempestade para que selasse a verdade do momento e manchasse aquilo que já estava encharcado de sangue: a palavra.
Aqui despejei quase todo o resto de dor que ainda tinha no peito. A dor era muita porque o amor também o era.
Aqui entreguei os segredos que se escondiam entre artérias e os músculos, que vagavam na corrente sanguínea e voltava ao coração. Meus segredos mais íntimos, meu amor mais visceral.
Este amor morreu à míngua, agonizando, estrebuchando no meu corpo que já se rebelou e agora está contido pela impotência e pela dor.
Este papel resume, na verdade, a desilusão de toda uma vida: o próprio amor.
Daqui, do alto do meu apartamento, da réstia de cidade que minha janela me permite. Daqui, do trono da minha mais absoluta desolação, o amor me parece ainda mais distante”.
E do alto da minha miséria consigo distinguir, no horizonte do meu espírito, aquilo que me incomoda. Vejo, ao meu redor, uma aquarela com as pessoas que circulavam em torno da minha vida. Eu só consigo ver a dor delas, eu só vejo seu incômodo. Eu as vejo feridas, maculadas pela brutalidade do amor, pela violência com que o amor é retirado e colocado em suas vidas.
Como compreendo, neste breve momento, a complexidade de conseqüências que envolve o amor. Como enxergo longe e vejo com tanta nitidez a densidade trazida pelo amor.
E tudo dói tanto que não imagino como pensar em outras coisas.
Não compreendo, neste momento absurdo, como tenho conseguido agir por todos estes dias como se outra coisa existisse em mim além de um amor machucado.
A tempestade minguou, e também o seu ânimo.
A coisa foi se afastando aos poucos e à medida que se ia, as palavras se apagavam do pensamento e a vontade de declarar qualquer coisa se perdeu entre a cabeça e as mãos.
Os dedos perderam a vontade e os olhos fugiram, alheios, serenos, passivos, absorvendo, sem dar por isso, o conteúdo daquela calmaria. A cidade desolada, o silêncio, a água brilhando em todos os cantos. Tudo lavado, tudo quieto, tudo resignado pela imperatividade das vontades do céu.
Foi abandonando o transe e a auto-compaixão. Toda aquela aquela densidade sentimental se afastou dele em câmera lenta, tornava-se secundária ao vazio de idéias e de sentidos.
Aos poucos, o pensamento foi abandonando o ego, se desligando da auto-compaixão e se tornando algo bem mais leve, algo que pedia um blues.
Ligou o blues, ouviu “Secos e Molhados”, baixinho. O som expandia-se pela sala em total conformidade com o momento. Por um instante, as coisas todas pareceram certas.
Com a música, o quarto ficou mais poético, a chuva mais melódica e a noite ficou azul. Uma leveza aconchegante tomou conta de seus movimentos e acomodou sua alma...
Dormiu ouvindo blues.
E eis que me encontro de novo à beira do soco, na iminência do golpe.
Eis que retorna a cena clichê em meu surrado filme cotidiano: Eu, puto e impotente.
A angústia virando frustração, que vira revolta, que se decanta em raiva, a raiva que desce para os músculos, que somatiza no corpo a expressão impassível da fúria. O olhar inacessível, o cenho fechado, o verbo irascível engatilhado na ponta-da-língua.
Olho a cena e me irrita a impassividade com que os objetos encaram minha angústia. Meus móveis, os mesmos; minhas roupas, as mesmas; as coisas... essas coisas que carrego nos bolsos, no ouvido, nas mãos, essas coisas que não sabem de nada. Ignoram, as coisas, aquilo que acontece dentro de mim quando o amor me falta, quando a minha carência grita na imensidão deserta do cotidiano.
O telefone, esse maldito, não pronuncia palavra para me salvar, impiedosamente inerte, quieto, apagado, escravizando minha ansiedade na negativa de cada segundo.
O silêncio afronta a minha dor.
Silêncio do mundo, grito da alma.
Arrebento minha mão, mas não entrego meu corpo à solidão. E antes que nele não reste mais uma gota sequer de vida, não paro de bater nas coisas. Este é o lado louco que não ouso esconder de mim mesmo. Meu espírito é punk.
Talvez, esvaziando meu corpo, não me reste mais ânimo para tristeza.
Meu soco não é um soco vândalo, não é ignorância incivilizada. É o esperneio do coração esmagado, é reação.
Acerto paredes, portas, travesseiro, cama, móveis, chão. Acerto aquilo que me afronta, a quietude, o silêncio, a inércia das coisas. Destruo a pele, acabo com a higidez dos nervos, com a simetria das articulações, e tudo isso me acaba um pouco.
Mas minha tristeza permanece e se agrava. Ela se apura e, no corpo vazio, se transforma em auto-compaixão, e é então que meu ridículo atinge o seu nível mais alto, quando caído no chão, transpirando, com os músculos tensos, a imagem do rebelde ensandecido cai por terra e o desespero fica mais nítido em meus olhos que choram, em minha boca que baba.
Meu corpo está desnutrido de amor, é essa minha verdade.
O abandono de quem se apaixona é uma espiral em queda livre. Estou caindo agora, estou pagando a alma. Estou no inferno.
Meu disco-rígido está cheio. Travado. Em minha cabeça não cabe mais nada além da minha dor. Qualquer palavra alheia me fere, porque não é para mim e qualquer palavra agora seria alheia a tudo o que me dói, portanto não quero palavras, elas me irritam, machucam, me enchem com toda essa dialética inútil, vazia.
Assim, vejo a contradição impensável em mim: amor e desespero. Algo absurdo: preciso desesperadamente da mesmice do amor.
Não sei o quê, nem quando, mas algo em mim está incuravelmente velho e caminha para a morte.
Cansado, esgotado chorando, junto o que resta de vida em minhas células levo meus olhos à janela, que escancaro para espancar o mundo com meu olhar “punk”, mas é o mundo que me espanca com sua insensibilidade.
Viração
Vejo nuvens fechando o cerco sobre a cidade. O formigueiro se apavora.
Isso me diverte. Nesses momentos em que o humano treme diante da realidade da natureza, não há qualquer hiprocrisia. O tempo se fecha e chove sem perguntar à cidade se ela está pronta, se suas ruas não serão inundadas, se as pessoas estão com guarda-chuvas, se as janelas foram fechadas, se as roupas estão no varal, se sabem dirigir na pista molhada.
Impressionante como a dor me dá esta sensação torpeza e bem-estar. É como se minha fragilidade me confortasse.
Tem algo errado. Algo muito errado com esse meu coração.
As coisas fazem cada vez menos sentido para mim.
Sempre me senti à margem do mundo, mas agora, sem amor, sinto que não há mais motivo para ficar onde estou e ser quem finjo.
A rotina faz de mim algo bem distante do que sou, e a secura do coração deixa mais sensível o incômodo dessa existência articulada.
Sou animal contido em um teatro sem verdade.
Quero fugir, quero sair daqui, quero ser eu, embora não faça a menor idéia de como seja isso. Preciso muito ver minha alma de fora para dentro, enxergar aquilo que escreve minha própria essência. Preciso sair de mim para saber quem sou. Não sei para onde nem como, mas preciso sair.
Só esta viração me traz alento, pairando sobre tudo estão as nuvens. Elas, sim, me fazem bem. Elas se chocam e fazem tremer o chão, jogam descargas elétricas aleatoriamente pelo espaço, avacalham com a rotina.
Como amo esta viração.
Como adoro esta ameaça de tempestade, esta incerteza, esta ruptura do normal.
Como adoro esta contra-cultura natural, como me alegra a verdade das coisas, dos fatos, daquilo que simplesmente existe
Tiro a gravata. Tiro a camisa e, botão a botão, sigo mirando o rosto que vejo no espelho. Aquilo sou eu.
Quão estranho pareço para mim.
Abro todas as janelas. quero que a chuva entre e estrague com tudo, quero que a chuva me salve de toda esta artificialidade.
A chuva ainda é só vento. Ventania desordenada que espalha todos os papéis da minha pasta estatelada no chão.
Agora somos o vento e eu contra o resto do mundo.
Chuva
Sinto-me bem melhor com a possibilidade de chuva.
Mas o tempo ainda insiste em gotejar ao meu redor, ditando o compasso em que anda o mundo e desdenhando da insignificância da minha revolta. O tempo me tortura com a monotonia dos segundos fugindo um a um em irritante constância.
Não tenho mais forças para brigar. Sequer tenho ânimo para chorar. Deixo que as coisas simplesmente aconteçam agora. Só minha passividade me acalma.
A chuva vem, este é o meu consolo, ela vem quebrar o discurso imperativo do cotidiano.
Meu amor está todo na chuva agora. As nuvens descarregam meus medos.
Ponho o rosto na janela para sentir o impacto das gotas grandes e fortes.
Com as mãos trêmulas, feridas, encosto a mesa na janela e sento-me escrevendo tudo o que me vem à cabeça, parece uma confissão, mas é desarmonia humana:
“Aqui jaz minha alma.
Aqui, neste papel molhado, borrado, escrevi meus últimos versos de amor e os entreguei à tempestade para que selasse a verdade do momento e manchasse aquilo que já estava encharcado de sangue: a palavra.
Aqui despejei quase todo o resto de dor que ainda tinha no peito. A dor era muita porque o amor também o era.
Aqui entreguei os segredos que se escondiam entre artérias e os músculos, que vagavam na corrente sanguínea e voltava ao coração. Meus segredos mais íntimos, meu amor mais visceral.
Este amor morreu à míngua, agonizando, estrebuchando no meu corpo que já se rebelou e agora está contido pela impotência e pela dor.
Este papel resume, na verdade, a desilusão de toda uma vida: o próprio amor.
Daqui, do alto do meu apartamento, da réstia de cidade que minha janela me permite. Daqui, do trono da minha mais absoluta desolação, o amor me parece ainda mais distante”.
E do alto da minha miséria consigo distinguir, no horizonte do meu espírito, aquilo que me incomoda. Vejo, ao meu redor, uma aquarela com as pessoas que circulavam em torno da minha vida. Eu só consigo ver a dor delas, eu só vejo seu incômodo. Eu as vejo feridas, maculadas pela brutalidade do amor, pela violência com que o amor é retirado e colocado em suas vidas.
Como compreendo, neste breve momento, a complexidade de conseqüências que envolve o amor. Como enxergo longe e vejo com tanta nitidez a densidade trazida pelo amor.
E tudo dói tanto que não imagino como pensar em outras coisas.
Não compreendo, neste momento absurdo, como tenho conseguido agir por todos estes dias como se outra coisa existisse em mim além de um amor machucado.
A tempestade minguou, e também o seu ânimo.
A coisa foi se afastando aos poucos e à medida que se ia, as palavras se apagavam do pensamento e a vontade de declarar qualquer coisa se perdeu entre a cabeça e as mãos.
Os dedos perderam a vontade e os olhos fugiram, alheios, serenos, passivos, absorvendo, sem dar por isso, o conteúdo daquela calmaria. A cidade desolada, o silêncio, a água brilhando em todos os cantos. Tudo lavado, tudo quieto, tudo resignado pela imperatividade das vontades do céu.
Foi abandonando o transe e a auto-compaixão. Toda aquela aquela densidade sentimental se afastou dele em câmera lenta, tornava-se secundária ao vazio de idéias e de sentidos.
Aos poucos, o pensamento foi abandonando o ego, se desligando da auto-compaixão e se tornando algo bem mais leve, algo que pedia um blues.
Ligou o blues, ouviu “Secos e Molhados”, baixinho. O som expandia-se pela sala em total conformidade com o momento. Por um instante, as coisas todas pareceram certas.
Com a música, o quarto ficou mais poético, a chuva mais melódica e a noite ficou azul. Uma leveza aconchegante tomou conta de seus movimentos e acomodou sua alma...
Dormiu ouvindo blues.
quarta-feira, setembro 22, 2004
Estrada, coração e alma.
Quando o coração perde o rumo, o corpo fica perdido, vagando pelo mundo, pousando de lugar em lugar, transportando uma alma inconsciente, sem vida, sem alma.
Quando se perde a razão do amor, a vida se torna incômoda e estranha demais.
Mas é a vida empurrando para frente, é a alma querendo renascer, é o corpo correndo feito louco, é o coração sufocado, querendo oxigênio.
A alma, passageira do corpo, precisa de distração, quer lugares novos, quer provar o gosto da vida bem longe das paredes que já viram tanto choro e tanta solidão.
Faço as malas todos os dias, e cada dia escolho algo em mim para levar e para deixar.
Planejo, cada dia, a hora de rasgar os planos e tomar o rumo, as encruzilhadas em que permitirei hesitar e o caminho que pretendo inovar.
Se aqui o coração se oprime, melhor curá-lo bem longe, para evitar que o sonho se dissolva e que se desacredite no amor.
Não, o amor não, o amor não pode morrer. Ele precisa de irrealidade e sonho, poesia e música, não de dor.
É melhor fugir então,é melhor que as lágrimas caiam na poeira,para que fiquem sempre para trás, é melhor que o pensamento, assim distante, ganhe novas formas.
No fim do caminho, pode ser que esteja o meu sorriso.
Portanto, peço ao tempo que passe bem depressa, pois a estrada tem pressa de mim e eu a quero.
Já vou!
Quando se perde a razão do amor, a vida se torna incômoda e estranha demais.
Mas é a vida empurrando para frente, é a alma querendo renascer, é o corpo correndo feito louco, é o coração sufocado, querendo oxigênio.
A alma, passageira do corpo, precisa de distração, quer lugares novos, quer provar o gosto da vida bem longe das paredes que já viram tanto choro e tanta solidão.
Faço as malas todos os dias, e cada dia escolho algo em mim para levar e para deixar.
Planejo, cada dia, a hora de rasgar os planos e tomar o rumo, as encruzilhadas em que permitirei hesitar e o caminho que pretendo inovar.
Se aqui o coração se oprime, melhor curá-lo bem longe, para evitar que o sonho se dissolva e que se desacredite no amor.
Não, o amor não, o amor não pode morrer. Ele precisa de irrealidade e sonho, poesia e música, não de dor.
É melhor fugir então,é melhor que as lágrimas caiam na poeira,para que fiquem sempre para trás, é melhor que o pensamento, assim distante, ganhe novas formas.
No fim do caminho, pode ser que esteja o meu sorriso.
Portanto, peço ao tempo que passe bem depressa, pois a estrada tem pressa de mim e eu a quero.
Já vou!
domingo, julho 11, 2004
O intruso
Rua Guicurus. Centro do comércio atacadista de armarinhos de Belo Horizonte. Eixo quente dos puteiros, dos camelôs, dos trambiqueiros, dos cinemas pornô e do crack.
Putas diurnas de 15 reais, camelôs-traficantes, pessoas comuns, gigolôs, comerciantes, trabalhadores em busca de sexo. Um espetáculo esplêndido.
Um homem bêbado desafiava um golpista enquanto o intruso subia a calçada. Seu passo incerto e sem vontade, seu rosto esquálido com uma pequena cicatriz, talvez queda, talvez soco.
Ele era alheio, uma criatura semi-oculta que quase não se via. Parecia sentir-se expulso de tudo, até do bar, cuja porta lhe causou desejo e receio.
Talvez quisesse pedra, talvez nem quisesse mais nada.
Parou, olhou para o chão, não vi o que era. Olhou, olhou, abaixou-se, apanhou um “toco” de cigarro ainda aceso, quase no filtro. Um resto quase morto lhe pareceu um trago suculento.
Sentou-se lenta e debilmente encostando-se na parede, olhou para cima e me viu.
Olhou-me nos olhos, dilacerou-me a alma e, de súbito, me trouxe de volta ao mundo. Saí do transe como quem volta de um sonho estranho e então percebi-me existindo.
Eu, sendo alguém, não sabia o que fazer.
Naquele lapso, não houve nada que nos separasse. Nenhum preconceito, nenhuma aversão, nenhuma raiva, nenhuma dor, só o estranhamento.
Foi então que vi que estávamos na mesma calçada, no mesmo universo e na órbita do mesmo instante, ainda que fôssemos absolutamente estranhos.
Seu olhar não me pedia, não julgava, não temia, só olhava com assustado interesse. O meu, quis fugir.
O desconforto que senti me foi ainda mais estranho. Não sabia quem era eu, não sabia o que lhe revelar da minha imagem, não sabia o que lhe dizer do meu mundo e, na verdade, meu mundo já nem existia. Não era burguês, nem mau, nem bom, nem certo nem errado. Não conseguia condenar nem aceitar sua presença, quis ser indiferente. Desejei a aconchegante proteção da minha concepção social mesquinha, da minha pseudo-antropologia urbana.Não havia mais tempo agora, eu deveria agir.
Onde está meu mundo quando preciso? Onde estão meus sinais de casta e classe? O que eu fiz com minha armadura de indiferença e minha visão seletiva, onde está minha compaixão anestésica?
Não houve remédio, o desconcerto idiotizou meus gestos. Tornei-me fraco. Desviei os olhos como quem pede desculpas pela indiscrição. Fiquei inerte, impassível e absolutamente idiota.
Com o olhar, ele jogou por terra todas as minhas reflexões fugazes e recusou minha culpa neurótica. A humanidade estava sob nossas peles com a mesma intensidade e nenhum de nós sabia como lidar com ela. Ele e sua miséria, eu e minha riqueza.
Inútil e desnecessário, saí da sua vida. Ele não, ele ficou sentado em todos os cantos do meu pensamento, com seus olhos apáticos e curiosos, procurando alguém que eu também não via, procurando por mim.
Havia alguém em mim que se incomodava profundamente com a miséria alheia, mas quem ele era?
Até então meu pensamento se contentava em elaborar discursos e construir ideais, mas o que eu havia realizado? Nunca distribuí sopa, nunca fiz doações para campanhas do agasalho, nunca doei um quilo de alimento não perecível, nunca tomei nenhum destes entorpecentes de culpa.
Nunca me dispus a ouvir estas pessoas que sofrem, a fazer algo por elas, a transformar verbo em gesto. Sequer conseguia olhá-las nos olhos.
A verdade é uma ressaca pesada. Sou hipócrita e meu discurso é podre e oco. Fujo da realidade.
Agora, revendo a cena, compreendo mais cruamente a minha natureza e vejo uma outra dimensão dos fatos. Todo o meu inquietamento social, todo o meu desassossego humano, toda a minha culpa mesquinha teriam se acalmado se tivesse simplesmente lhe comprado um cigarro.
Putas diurnas de 15 reais, camelôs-traficantes, pessoas comuns, gigolôs, comerciantes, trabalhadores em busca de sexo. Um espetáculo esplêndido.
Um homem bêbado desafiava um golpista enquanto o intruso subia a calçada. Seu passo incerto e sem vontade, seu rosto esquálido com uma pequena cicatriz, talvez queda, talvez soco.
Ele era alheio, uma criatura semi-oculta que quase não se via. Parecia sentir-se expulso de tudo, até do bar, cuja porta lhe causou desejo e receio.
Talvez quisesse pedra, talvez nem quisesse mais nada.
Parou, olhou para o chão, não vi o que era. Olhou, olhou, abaixou-se, apanhou um “toco” de cigarro ainda aceso, quase no filtro. Um resto quase morto lhe pareceu um trago suculento.
Sentou-se lenta e debilmente encostando-se na parede, olhou para cima e me viu.
Olhou-me nos olhos, dilacerou-me a alma e, de súbito, me trouxe de volta ao mundo. Saí do transe como quem volta de um sonho estranho e então percebi-me existindo.
Eu, sendo alguém, não sabia o que fazer.
Naquele lapso, não houve nada que nos separasse. Nenhum preconceito, nenhuma aversão, nenhuma raiva, nenhuma dor, só o estranhamento.
Foi então que vi que estávamos na mesma calçada, no mesmo universo e na órbita do mesmo instante, ainda que fôssemos absolutamente estranhos.
Seu olhar não me pedia, não julgava, não temia, só olhava com assustado interesse. O meu, quis fugir.
O desconforto que senti me foi ainda mais estranho. Não sabia quem era eu, não sabia o que lhe revelar da minha imagem, não sabia o que lhe dizer do meu mundo e, na verdade, meu mundo já nem existia. Não era burguês, nem mau, nem bom, nem certo nem errado. Não conseguia condenar nem aceitar sua presença, quis ser indiferente. Desejei a aconchegante proteção da minha concepção social mesquinha, da minha pseudo-antropologia urbana.Não havia mais tempo agora, eu deveria agir.
Onde está meu mundo quando preciso? Onde estão meus sinais de casta e classe? O que eu fiz com minha armadura de indiferença e minha visão seletiva, onde está minha compaixão anestésica?
Não houve remédio, o desconcerto idiotizou meus gestos. Tornei-me fraco. Desviei os olhos como quem pede desculpas pela indiscrição. Fiquei inerte, impassível e absolutamente idiota.
Com o olhar, ele jogou por terra todas as minhas reflexões fugazes e recusou minha culpa neurótica. A humanidade estava sob nossas peles com a mesma intensidade e nenhum de nós sabia como lidar com ela. Ele e sua miséria, eu e minha riqueza.
Inútil e desnecessário, saí da sua vida. Ele não, ele ficou sentado em todos os cantos do meu pensamento, com seus olhos apáticos e curiosos, procurando alguém que eu também não via, procurando por mim.
Havia alguém em mim que se incomodava profundamente com a miséria alheia, mas quem ele era?
Até então meu pensamento se contentava em elaborar discursos e construir ideais, mas o que eu havia realizado? Nunca distribuí sopa, nunca fiz doações para campanhas do agasalho, nunca doei um quilo de alimento não perecível, nunca tomei nenhum destes entorpecentes de culpa.
Nunca me dispus a ouvir estas pessoas que sofrem, a fazer algo por elas, a transformar verbo em gesto. Sequer conseguia olhá-las nos olhos.
A verdade é uma ressaca pesada. Sou hipócrita e meu discurso é podre e oco. Fujo da realidade.
Agora, revendo a cena, compreendo mais cruamente a minha natureza e vejo uma outra dimensão dos fatos. Todo o meu inquietamento social, todo o meu desassossego humano, toda a minha culpa mesquinha teriam se acalmado se tivesse simplesmente lhe comprado um cigarro.
sábado, julho 03, 2004
Biscoitos de São João
Meu pessoal começou a chegar para a formatura.
A primeira foi a minha mãe, claro.
Na bagagem, além das quitandas de sempre,vieram encomendas muito especiais: biscoitos de são joão, bolo de mandioca e puba.
Não se tratam de especiarias feitas por encomenda ou compradas na rústica feira de sábado. São ainda mais raros. São feitos por aquelas famílias simples para receber as visitas e os parentes que sempre voltam nessa véspera do ano para a melhor das festas: a "fogueira".
Estas guloseimas de polvilho e mandioca vêm daquelas casas em que a generosidade supera a pobreza e a hospitalidade não se envergonha de ser humilde. São biscoitos assados com calor humano, temperados com amor, e bolos dosados com tradição e a sabedoria de cada descendência.
O especial nisso é que foram ganhados. Me foram ofertados como prova de gratidão por terem recebido lembranças de minha formatura e com os votos de boa sorte e sucesso.
Quatro "matulas", uma de cada casa, embrulhados com a simplicidade o cuidado peculiares àquelas mulheres.
Acho que nunca mereci uma consideração tão grande e nunca tive uma prova tão significativa de tudo o que me é mais caro naquele povo.
Estranho, tenho comido estas coisas desde criança e nunca reparei no seu paladar. Elas têm gosto de respeito, têm sabor de generosidade, cheiro de aconchego e caem muito bem com café.
Estou comendo com lágrimas nos olhos, e não vou desperdiçar nenhum farelo. Deus permita que eu esteja a altura de retribuir a nobreza deste gesto.
A primeira foi a minha mãe, claro.
Na bagagem, além das quitandas de sempre,vieram encomendas muito especiais: biscoitos de são joão, bolo de mandioca e puba.
Não se tratam de especiarias feitas por encomenda ou compradas na rústica feira de sábado. São ainda mais raros. São feitos por aquelas famílias simples para receber as visitas e os parentes que sempre voltam nessa véspera do ano para a melhor das festas: a "fogueira".
Estas guloseimas de polvilho e mandioca vêm daquelas casas em que a generosidade supera a pobreza e a hospitalidade não se envergonha de ser humilde. São biscoitos assados com calor humano, temperados com amor, e bolos dosados com tradição e a sabedoria de cada descendência.
O especial nisso é que foram ganhados. Me foram ofertados como prova de gratidão por terem recebido lembranças de minha formatura e com os votos de boa sorte e sucesso.
Quatro "matulas", uma de cada casa, embrulhados com a simplicidade o cuidado peculiares àquelas mulheres.
Acho que nunca mereci uma consideração tão grande e nunca tive uma prova tão significativa de tudo o que me é mais caro naquele povo.
Estranho, tenho comido estas coisas desde criança e nunca reparei no seu paladar. Elas têm gosto de respeito, têm sabor de generosidade, cheiro de aconchego e caem muito bem com café.
Estou comendo com lágrimas nos olhos, e não vou desperdiçar nenhum farelo. Deus permita que eu esteja a altura de retribuir a nobreza deste gesto.
sábado, junho 19, 2004
Trovão abafado, coração humano.
Lá vou eu, em busca paz.
As montanhas me convidam para longe da cidade.
Há barulho ainda, muito distante e, por isso mesmo, assustador. É a cidade com seu trovoar abafado, algo como uma colméia gigante ou uma enorme máquina escavando à distância, um barulho constante e estático. Uma colônia que se esparrama lenta e ameaçadoramente.
Ouvindo aquilo em meio à paz das montanhas percebi o medo que natureza deve sentir com nossa presença.
Somos praga.
Dou mais um gole na garrafa de plástico, viro as costas e sigo adiante...
Se projetassem o tempo em alta velocidade, talvez sobre meus rastros, num futuro próximo, haverá asfalto, postes, casas, carros passando.
Estranho, mesmo sabendo disso, não consigo parar de andar.
As montanhas me convidam para longe da cidade.
Há barulho ainda, muito distante e, por isso mesmo, assustador. É a cidade com seu trovoar abafado, algo como uma colméia gigante ou uma enorme máquina escavando à distância, um barulho constante e estático. Uma colônia que se esparrama lenta e ameaçadoramente.
Ouvindo aquilo em meio à paz das montanhas percebi o medo que natureza deve sentir com nossa presença.
Somos praga.
Dou mais um gole na garrafa de plástico, viro as costas e sigo adiante...
Se projetassem o tempo em alta velocidade, talvez sobre meus rastros, num futuro próximo, haverá asfalto, postes, casas, carros passando.
Estranho, mesmo sabendo disso, não consigo parar de andar.
sábado, junho 05, 2004
Formatura.
É só uma graduação, eu sei.É só um bacharelato. Estou a títulos e títulos de distância dos que decidem, dos mais importantes, dos monumentais catedráticos, das cadeiras grandes de madeira rara. Daqueles que têm autoridade formal para falar o que pensam.
Não me assusta a prova de prática III, não me amedronta qualquer outra nota que ainda não recebi e nem tampouco me intimido com a defesa de monografia, os doutores e mestres da banca, ou o temido exame de ordem. Nada disso.
Sequer me assustam os livros caros e os festejados nomes das prateleiras, não não me assustam. Não temo ser confrontado com tantas verdades impalpáveis de tantas teorias fantásticas.
Também não me afetam a vaidade e a mesquinheza dos velhos senhores, dos guardiães das velhas verdades. Não me desanimo com o desprezo daqueles que não acreditam na pureza dos ideais. Não, poderosos senhores, não os temo mais.
Nada disso me abala porque descobri que é preciso transcender o jogo do mundo, é preciso enxergar a verdade humana que quase morre de tão sufocada pela abstração social.
No caminho,quase me esqueci. As fraquezas e as batalhas perdidas quase me afastaram da rota, mas algo sempre me diz que é preciso seguir em frente, mergulhar no erro e aprender. É preciso humildade para ser forte e então me levanto antes do fim da contagem.
Assumo a responsabilidade pelo que escrevi e pelo que falei, porque é preciso ser honesto consigo e com o mundo. Posso errar e falhar, mas minha essência persevera, só ela corrige o erro, só ela redireciona o caminho.
Cheguei até aqui e sei que ainda não fui longe demais, mas daqui mesmo, da beira da linha mando um recado ao mundo: digam a todos que chego sério e certo e que trago a garra de Xangô e a proteção dos anjos e santos. Digam que estou armado e que não temo a sombra ou morte dos vales do mundo. Digam por quantos combates passei e de quantas quedas me levantei, para que vejam que não desisto fácil. Digam que me orgulho de cada cicatriz e em minha alma vibra a vitória. Porque, simplesmente porque eu creio nela. Não há mares ou vales que possam me deter quando me guia a alma sonhadora. Para isso tenho minha armadura diária, para isso estou aprendendo a lutar.
Quero que saibam que comigo vêm mil exércitos, pois não me esqueci daqueles que vi derrotados pelo mundo, daqueles massacrados pela injustiça. Quero que saibam que carrego todos os que amo, e como bom guerreiro me coloco a seu serviço e se minha espada for pequena e solitária, ainda assim, será guerreira e destemida.
Construo minha vida e sinto que tenho algo agora. Não é diploma, não será uma carteira, não é um título. É o que vivi, o que passei, o que senti e o que aprendi.
Nunca fiz nada que não fosse com toda a minha alma, não é agora que será diferente.
Ainda que tenha conhecido as decepções, a miséria e o lado mais cru dessa artificialidade social, ainda assim, acho que posso mudar algo, afinal, já mudei algo em mim.
Faltam alguns dias ainda, mas tenho uma certeza muito sólida do que vem pela frente. Falta pouco, conto as horas. Subirei em um palco pomposo, em vestes pomposas e não me importa que seja o último ou que não me filmem. Serei eu ali. Com a certeza plena do que cabe a mim e do que sou capaz.
Do alto daquele palco olharei nos olhos do meu pai e ele saberá que é ele mesmo ali em cima, que é a sua vida multiplicada em meus atos, que é a sua alma continuando em mim. Olharei nos olhos da minha mãe e ela sentirá seu próprio coração batendo.
É assim, como quem reza, como um guerreiro que jura sua espada, é dessa forma que pretendo me formar, é dessa forma que pretendo construir a minha vida.
"Seja a mudança que você deseja ver no mundo (Mahatma Ghandi)"
"Nenhum caminho por caminho, nenhum limite por limite (Bruce Lee)"
E isso é tudo, obrigado, amigos.
Não me assusta a prova de prática III, não me amedronta qualquer outra nota que ainda não recebi e nem tampouco me intimido com a defesa de monografia, os doutores e mestres da banca, ou o temido exame de ordem. Nada disso.
Sequer me assustam os livros caros e os festejados nomes das prateleiras, não não me assustam. Não temo ser confrontado com tantas verdades impalpáveis de tantas teorias fantásticas.
Também não me afetam a vaidade e a mesquinheza dos velhos senhores, dos guardiães das velhas verdades. Não me desanimo com o desprezo daqueles que não acreditam na pureza dos ideais. Não, poderosos senhores, não os temo mais.
Nada disso me abala porque descobri que é preciso transcender o jogo do mundo, é preciso enxergar a verdade humana que quase morre de tão sufocada pela abstração social.
No caminho,quase me esqueci. As fraquezas e as batalhas perdidas quase me afastaram da rota, mas algo sempre me diz que é preciso seguir em frente, mergulhar no erro e aprender. É preciso humildade para ser forte e então me levanto antes do fim da contagem.
Assumo a responsabilidade pelo que escrevi e pelo que falei, porque é preciso ser honesto consigo e com o mundo. Posso errar e falhar, mas minha essência persevera, só ela corrige o erro, só ela redireciona o caminho.
Cheguei até aqui e sei que ainda não fui longe demais, mas daqui mesmo, da beira da linha mando um recado ao mundo: digam a todos que chego sério e certo e que trago a garra de Xangô e a proteção dos anjos e santos. Digam que estou armado e que não temo a sombra ou morte dos vales do mundo. Digam por quantos combates passei e de quantas quedas me levantei, para que vejam que não desisto fácil. Digam que me orgulho de cada cicatriz e em minha alma vibra a vitória. Porque, simplesmente porque eu creio nela. Não há mares ou vales que possam me deter quando me guia a alma sonhadora. Para isso tenho minha armadura diária, para isso estou aprendendo a lutar.
Quero que saibam que comigo vêm mil exércitos, pois não me esqueci daqueles que vi derrotados pelo mundo, daqueles massacrados pela injustiça. Quero que saibam que carrego todos os que amo, e como bom guerreiro me coloco a seu serviço e se minha espada for pequena e solitária, ainda assim, será guerreira e destemida.
Construo minha vida e sinto que tenho algo agora. Não é diploma, não será uma carteira, não é um título. É o que vivi, o que passei, o que senti e o que aprendi.
Nunca fiz nada que não fosse com toda a minha alma, não é agora que será diferente.
Ainda que tenha conhecido as decepções, a miséria e o lado mais cru dessa artificialidade social, ainda assim, acho que posso mudar algo, afinal, já mudei algo em mim.
Faltam alguns dias ainda, mas tenho uma certeza muito sólida do que vem pela frente. Falta pouco, conto as horas. Subirei em um palco pomposo, em vestes pomposas e não me importa que seja o último ou que não me filmem. Serei eu ali. Com a certeza plena do que cabe a mim e do que sou capaz.
Do alto daquele palco olharei nos olhos do meu pai e ele saberá que é ele mesmo ali em cima, que é a sua vida multiplicada em meus atos, que é a sua alma continuando em mim. Olharei nos olhos da minha mãe e ela sentirá seu próprio coração batendo.
É assim, como quem reza, como um guerreiro que jura sua espada, é dessa forma que pretendo me formar, é dessa forma que pretendo construir a minha vida.
"Seja a mudança que você deseja ver no mundo (Mahatma Ghandi)"
"Nenhum caminho por caminho, nenhum limite por limite (Bruce Lee)"
E isso é tudo, obrigado, amigos.
segunda-feira, maio 17, 2004
Foi assim que se deu.
Surgiu do nada, sem ter nem porquê. Como uma flor noturna, simplesmente se abriu.
Ninguém viu a hora, o minuto ou o segundo em que aquilo tudo começou, mas eles sentiram. Ah! sentiram.
Uns dizem que o coração suspirou, mas não é verdade. Ele parou. Parou mesmo, paradinho, sequer ousou gemer e quando gemeu, gritou: tudum tudum tudum... e quem ouviu não escutou outra coisa.
Dava para ver o sangue latejando, a pele em brasa, as artérias desesperadas encharcando tudo sem irrigar absolutamente nada, nem mesmo o cérebro.Emburreceram, ambos.
Os únicos comandos, se alguém conseguiu perceber eram ordens químicas sem-sentido despejando hormônios e mais hormônios no organismo já destemperado.
Foi assim que ficaram, os dois, paralisados e bobos, sentindo a pele sanguínea, o frio na barriga, o anestésico sutil daquele olhar cruzado, daquele timbre de voz, daquela simetria absurda.
Bum! apaixonaram-se.
Pareceu até que já nasceram apaixonados. Melhor ainda, se apaixonaram em outra vida e reencontraram-se ali, naquela sala estranha, cercados de pessoas estranhas falando uma língua estranha. Estrangeiros do mundo. Amantes.
Homem, mulher, corpos, sexos: eram aquilo, a origem da espécie.
Mas eram, ainda, distantes. As palavras certas, as convenções, os códigos todos.
Uma palavra maquinada demorou a sair e sua trepidação denotou a verdade. Já sabiam.
Se quiseram intensamente e ninguém soube de nada, a não ser que tenham sentido a respiração vacilante, o coração disparado, o olhar curioso, os poros abertos e os pêlos eriçados.
A não ser que tenham percebido a alma tórrida e a paixão linfática.
Surgiu do nada, sem ter nem porquê. Como uma flor noturna, simplesmente se abriu.
Ninguém viu a hora, o minuto ou o segundo em que aquilo tudo começou, mas eles sentiram. Ah! sentiram.
Uns dizem que o coração suspirou, mas não é verdade. Ele parou. Parou mesmo, paradinho, sequer ousou gemer e quando gemeu, gritou: tudum tudum tudum... e quem ouviu não escutou outra coisa.
Dava para ver o sangue latejando, a pele em brasa, as artérias desesperadas encharcando tudo sem irrigar absolutamente nada, nem mesmo o cérebro.Emburreceram, ambos.
Os únicos comandos, se alguém conseguiu perceber eram ordens químicas sem-sentido despejando hormônios e mais hormônios no organismo já destemperado.
Foi assim que ficaram, os dois, paralisados e bobos, sentindo a pele sanguínea, o frio na barriga, o anestésico sutil daquele olhar cruzado, daquele timbre de voz, daquela simetria absurda.
Bum! apaixonaram-se.
Pareceu até que já nasceram apaixonados. Melhor ainda, se apaixonaram em outra vida e reencontraram-se ali, naquela sala estranha, cercados de pessoas estranhas falando uma língua estranha. Estrangeiros do mundo. Amantes.
Homem, mulher, corpos, sexos: eram aquilo, a origem da espécie.
Mas eram, ainda, distantes. As palavras certas, as convenções, os códigos todos.
Uma palavra maquinada demorou a sair e sua trepidação denotou a verdade. Já sabiam.
Se quiseram intensamente e ninguém soube de nada, a não ser que tenham sentido a respiração vacilante, o coração disparado, o olhar curioso, os poros abertos e os pêlos eriçados.
A não ser que tenham percebido a alma tórrida e a paixão linfática.
terça-feira, maio 11, 2004
Guaraná em pó
Pizza do lado do mouse.
Vinho no lençol,
saca rolhas de ressaca
na sala.
e os olhos dela tão frios...
tem papel prá tudo quanto é canto,
encanto que se quebra nas horas,
palavra atrás de palavra,
fosfato atrás de fosfato
e o cursor na ainda segue piscando...
Os os olhos dela tão frios...
o rosto tão sério e tão certo,
a palavra tão curta e tão grossa,
a lembrança da raiva instantânea,
meia palavra, um terço de gesto
e meu humor do desencanto.
(just one word to say: f...)
Agora só esse ruído
e aquela luzinha verde...
O travesseiro ao pé da cama,
o lençol manchado caído,
jesus sofrendo na cruz
o computador grunhindo
incansável
e os olhos dela ali,
no meio daquele meu quarto
em um canto qualquer da memória,
perdidos no meio do caos,
é rosto de ganhar dinheiro,
sem sorriso nem simpatia,
é rosto que fecha questão,
são olhos de quem não vive.
O travesseiro embolado na cama
um canto, um drama
o cursor piscando,
A coca-cola ainda espumando.
e a cuca ali espiando,
a cuca que fica na estante,
na quinta prateleira,
abaixo do quincas borba,
ao lado do gato de botas,
dentro do Monteiro Lobato,
da capa desbeiçada e velha,
e os olhos dela tão frios...
da cuca...
mas não tenho mais medo,
meus olhos vermelhos me irritam,
passou o efeito,
foda-se, vou dormir,
amanhã eu termino .
essa droga de monografia.
Vinho no lençol,
saca rolhas de ressaca
na sala.
e os olhos dela tão frios...
tem papel prá tudo quanto é canto,
encanto que se quebra nas horas,
palavra atrás de palavra,
fosfato atrás de fosfato
e o cursor na ainda segue piscando...
Os os olhos dela tão frios...
o rosto tão sério e tão certo,
a palavra tão curta e tão grossa,
a lembrança da raiva instantânea,
meia palavra, um terço de gesto
e meu humor do desencanto.
(just one word to say: f...)
Agora só esse ruído
e aquela luzinha verde...
O travesseiro ao pé da cama,
o lençol manchado caído,
jesus sofrendo na cruz
o computador grunhindo
incansável
e os olhos dela ali,
no meio daquele meu quarto
em um canto qualquer da memória,
perdidos no meio do caos,
é rosto de ganhar dinheiro,
sem sorriso nem simpatia,
é rosto que fecha questão,
são olhos de quem não vive.
O travesseiro embolado na cama
um canto, um drama
o cursor piscando,
A coca-cola ainda espumando.
e a cuca ali espiando,
a cuca que fica na estante,
na quinta prateleira,
abaixo do quincas borba,
ao lado do gato de botas,
dentro do Monteiro Lobato,
da capa desbeiçada e velha,
e os olhos dela tão frios...
da cuca...
mas não tenho mais medo,
meus olhos vermelhos me irritam,
passou o efeito,
foda-se, vou dormir,
amanhã eu termino .
essa droga de monografia.
segunda-feira, abril 26, 2004
Lithium Ion
Para os celulares e computadores, íons lítio.
Máquinas fotográficas, gravadores, câmeras: Níkel-cádmio.
Telefones, energia elétrica.
Energia, água.
Papel, ávores.
Já repararam o quanto a memória da humanidade é vulnerável?
Somos uma civilização-detalhe no universo,
auto-predatória, paradoxal, gananciosa,
mas fadada ao esquecimento.
Não somos o máximo?
Hehe!
Máquinas fotográficas, gravadores, câmeras: Níkel-cádmio.
Telefones, energia elétrica.
Energia, água.
Papel, ávores.
Já repararam o quanto a memória da humanidade é vulnerável?
Somos uma civilização-detalhe no universo,
auto-predatória, paradoxal, gananciosa,
mas fadada ao esquecimento.
Não somos o máximo?
Hehe!
Assinar:
Postagens (Atom)