segunda-feira, setembro 08, 2008

Balanço

Inventei um sonho para cada um dos tantos dias que vivi até hoje e minha vida tem caminhado, passo a passo, de um sonho a outro.
Andei por vários destes anos buscando o significado de mim e, em mim mesmo, assim sozinho, não vi resposta nem graça. Inventei amar, mas o amor se mostrou uma criatura indomável e inconstante, ora precipitada, ora arredia e meu coração sacolejou muito ao tentar cavalgá-la.
Inventei guerras e me fiz herói, mas meu heroismo não resistiu à rotina e as guerras perderam o sentido no somatório da vida.
Na trilha oposta, busquei a paz, mas também a paz se mostrou inócua.
Amei o vento, as noites de lua, as montanhas, as cachoeiras, as longas distâncias à pé, as horas incontáveis pedalando e as caçadas aos pôres-do-sol.
Aliás, foi entre os elementos aprendi o significado da simplicidade e me senti mais forte.
Fiz do movimento minha maior verdade e é o movimento que me dá essência, porque sou inquieto.
Não gostei de mim quando causei mágoas, quando decepcionei olhares, quando fui egoísta, quando vaidoso ou medíocre.
Gostei de mim quando estive entre as pessoas, quando entreguei sorrisos nas bocas, quando arrastei crianças pela imaginação afora.
Sim, sobretudo, gostei de ser palhaço.
E sigo andando, tentando cansar a vida com minha persistência, sorrindo das suas chacotas e rastreando o selvagem amor.

sábado, novembro 24, 2007

Meu engano

Quando o telefone toca por volta das oito e meia, pelas raras vezes em que estive em casa neste horário eu já sabia: era engano. Uma voz distante perguntaria se eu era um fulano que não era, e, aos gritos, no telefone público barulhento, levaria alguns minutos para entender que ligou na cidade errada. Eu o despacharia com uma certa impaciencia condescendente e abreviaria, ao máximo, a conversa.
Mas meus pais me visitavam, e foi pai quem atendeu o telefonema das oito e meia.
Seu esforço em compreender a situação chegou a me impacientar no início, mas antes que eu pudesse alertá-lo, ele já havia iniciado um diálogo que mudaria minha forma de ver as coisas. Meu pai atendeu àquele telefonema como as pessoas simples e antigas recebiam os viajantes, acolhendo-os, matando-lhes a sede e oferecendo o que de melhor podiam oferecer no pouso. Para ele, que viveu os tempos em que um telefonema era algo raro e significativo, era muito importante que chegasse ao destino certo.
Pai tratou o desconhecido como trata seus próprios amigos, com a mesma atenção, com o mesmo companheirismo. Aquele telefonema enganado poderia ser de um pai para um filho. Poderia representar a notícia de um evento importante, como o nascimento de uma criança, a morte de alguém ou a venda de uma fazenda. Poderia representar um dinheiro que havia sido enviado ou recebido, uma urgência sanada, uma seca duradoura, uma bênção.
Enquanto auxiliava o homem a decifrar os DDD's, sem dar-se conta disso, meu pai me ensinava uma das maiores lições de humildade que já recebi. Aquela simplicidade expunha minha indiferença e o egocentrismo que a cidade grande escreveu em mim. Eu perdi a espontaneidade. Aquela paciência que me faltava talvez fosse o elo que encaixasse alguma dose de vida nessa rotina individualista, crua e solitária.
Mais que isso, era meu pai. Aquele homem simples e tão espontaneamente bom...meu pai.
Ali por perto, sem que o mundo dele se alterasse, o meu passava por uma reviravolta, mas as lágrimas abafadas que caíam eram de orgulho e amor, gratidão do aluno pela bela lição recebida.
Aos setenta anos, meu pai me surpreende como quando eu era criança e ele o herói. Só que a criança cresceu e o herói ficou mais real.
Indo para a fazenda, meu velho herói abrindo a porteira.

quinta-feira, outubro 04, 2007

Mutatio


Transformações são assim, por mais que se tente precisar o momento em que uma coisa se torna outra, há um intervalo que fica oculto. É neste momento que algo some e algo surge.

Foi assim comigo, eu mudei e algo que era meu se perdeu no limiar da dor.

A alma, como tudo, se adapta.

O que sou hoje é o resultado de uma cadeia de fatos dos quais me lembro muito bem.

Da transformação nada lembro.

Lembro-me dos fatos de forma insípida e incolor, crua.

Não sinto nada. Não consigo sentir, não consigo falar sobre sentimentos.

Acharei, um dia, a lógica de tudo e saberei, então, porque sangra essa alma imatura.
Até lá, continuarei andando de lugar em lugar, colecionando pôres-do-sol.


sábado, junho 23, 2007

espelho da alma

Esta noite, sem perceber, espalhei armadilhas por todos os cantos e fui caindo em uma por uma.
Uma lembrança cortada, uma palavra ao avesso do sentido, uma música interrompida no primeiro acorde.
O forte que há em mim foi perdendo o traquejo enquanto as máscaras despencavam indiferentes ao que ia por dentro.
Descobri que meu coração é menino e não entende a confusão dos personagens instalados na rotina.
Logo não há mais saída. Logo comigo. Logo agora.
A saudade irradia pela corrente sanguínea, paralisa as pernas e enche olhos d'água.
Choro um pranto nobre e profundo na solidão do meu quarto.
Meu coração, menino que é, anda com medo de mim.



quinta-feira, março 29, 2007

Pedra Bonita - Itanhandy



(Fazenda Itanhandy, Rubim, Minas Gerais, por Marcelo Lutterbach)
Mova-se! Algo dentro de mim sempre ordenou isso. Saí de casa pequeno e sempre que volto vejo que há muito a explorar na terra dos meus pais e dos meus ancestrais.
O jeito aventureiro que cultivo encontra sempre aconchego na minha própria casa. Em outros tempos, meu pai foi tropeiro, cortava poeira e fazia rota de comércio do sertão ao litoral.
Quando mais menino, ensaiei minhas primeiras andadas à moda dos tropeiros, montado em um cavalo. O posto era honroso, assistente de Vovô Augusto, meu primeiro grande amigo, meu primeiro professor de vida. Tempos depois, já mais aquilatado de corpo e arranhado de paixões, cortei estrada, de bicicleta, desse sertão até a beira-mar e vi de perto o quanto meu vale é rico, apesar da pobreza que se fez sinônimo da palavra Jequitinhonha. Agora olho essas pedras e penso em escalar uma por uma, só para ver o que elas sempre viram naquele horizonte do meu sertão. Hei de fazê-lo, mas hei de fazer isso apaixonadamente, amando a terra que piso, querendo aprender com as rochas a ser forte e longevo.
Às vezes penso que foram estas rochas que moldaram os homens da minha terra. Homens como meu pai e meu avô, fortes, firmes, impassíveis e, sempre, olhando o que virá no horizonte.

sexta-feira, julho 28, 2006



Não há uma só gota de palavra que respingue aqui, debaixo desse céu absurdo.

Tudo é lua, céu, estrelas e eu.

Acredito que nunca estive tão absurdamente tranquilo na solidão.

quinta-feira, maio 25, 2006

areia dos sonhos

Quando pequeno, lembro de sonhar com areia.
Era uma grande bola de areia - sim, nos sonhos de crianças elas são possíveis -, e ela rolava aumentando de tamanho e, à medida que aumentava, ela se tornava mais leve e, à medida que ficava leve, a superfície pela qual rolava se tornava mais rugosa e o seu rolar na superfície irregular era algo incômodo e insuportável, eu sentia isso.
Quando a bola de areia parecia atingir seu ápice de tamanho e a superfície já não tinha como ser mais irregular, ela se equilibrava sobre a ponta de uma agulha e essa imagem simbolizava o extremo de uma angústia sufocante.
Mas a bola se tornava pequena de novo, pequena como a ponta da agulha em que se equilibrava e sua densidade era tanta que seu peso era muitas vezes maior, mas a superfície se tornava lisa e o seu deslocamento era, então, suave, lento e tranquilo.
Eu devia ter três ou quatro anos, pelas minhas contas de adulto.
Não havia medos nem a escravidão da lógica, só a angústia ilustrada por minha própria imaginação.
Meus sonhos eram uma aliança intuitiva entre o que sentia e as coisas que via no mundo sem saber ao certo o que eram, como areia, peso ou agulha.
Hoje sinto meus sonhos contaminados pela lógica, enquadrados.
Mas na noite passada, eu vi areia em um sonho qualquer e, no próprio sonho, lembrei daquele sonho de criança. Nesse meta-sonho, eu vi que um dia fui capaz de elaborar algo despido de todos os conceitos que me foram socialmente servidos até hoje, eu era pura imaginação.
Percebendo isso, quis construir um sonho novo, então pulei no ar e saí voando.

quinta-feira, maio 04, 2006

Intimidade

Te toquei
até que entre tua pele e meu tato não houvesse mais qualquer segredo,
ainda que,
entre nós,
todo toque seja novo.
Abracei teu corpo
até que nossa temperatura fosse única
e nossos corpos,
simbióticos.
Percorri cada poro e cada pêlo
até que minha boca conhecesse
cada fragmento de tua geografia.
Passeei tanto em teu corpo
que minha memória,
no resto das horas que passo sem ti,
não concebe mais qualquer lembrança
que não seja essa,
de nossa existência íntima,
de nossa serenidade lasciva.

(Fotografia de A.Brito)

terça-feira, abril 18, 2006

Ego trip

Viajando pelas veredas de mim mesmo encontrei, guardadas, certas coisas das quais sempre acreditei ter me livrado, por não gostar. Eram lembranças ruins, em que sofro.
E elas estavam guardadas em mim.
Descobri, na verdade, que nunca quisera perdê-las. Estranho apego ao insucesso, estranho culto ao desconforto.
Acomodei-as em memórias sempre visíveis e, por mais insólito que isso possa parecer, fiz, com elas, um ambiente para o qual fujo sempre que algo me assusta.
É como um quarto de misérias que construo quando deveria destruir.
Tentei ignorá-las, rir-me delas e lançá-las fora de vez, mas falhei no propósito. À medida que me desfazia, colhia-as de volta com o desespero de quem cata papéis ao vento.
Notei que não era involuntário, havia vontade minha ali, originada não sei de onde.
Surpreso com minha própria natureza, parei de tentar interferir e fiquei só contemplando toda a dimensão do enorme paradoxo que faz de mim o estranho ser que sou.

Estranho, ser esse ser. Ser esse ser humano estranho.
Humano, estranho ser.
Estranho ser humano, esse ser humano estranho que...
amo ser.

sexta-feira, abril 14, 2006

dimensão de nós

Onde estivemos?
perdidos, ambos, num mesmo olhar.
Fugimos,
e fixamos morada num ponto onde todas as dimensões foram uma única coisa:
verdade.
A verdade de nossos corpos e almas, a verdade humana do amor e da carne,
aquela coisa única que só sentimos ali.

Sim, estivemos lá,
naquela concretude de tempo,
naquela incerteza de espaço,
naquela perfeição de tudo,
na nossa alcova.

No ponto onde estivemos, estivemos a sós e completos.
Tu e eu,
fartos,
plenos,
gratos,
completos de amor.