quinta-feira, outubro 04, 2007
Mutatio
sábado, junho 23, 2007
espelho da alma
Uma lembrança cortada, uma palavra ao avesso do sentido, uma música interrompida no primeiro acorde.
O forte que há em mim foi perdendo o traquejo enquanto as máscaras despencavam indiferentes ao que ia por dentro.
Descobri que meu coração é menino e não entende a confusão dos personagens instalados na rotina.
Logo não há mais saída. Logo comigo. Logo agora.
A saudade irradia pela corrente sanguínea, paralisa as pernas e enche olhos d'água.
Choro um pranto nobre e profundo na solidão do meu quarto.
Meu coração, menino que é, anda com medo de mim.
quinta-feira, março 29, 2007
Pedra Bonita - Itanhandy

Mova-se! Algo dentro de mim sempre ordenou isso. Saí de casa pequeno e sempre que volto vejo que há muito a explorar na terra dos meus pais e dos meus ancestrais.
O jeito aventureiro que cultivo encontra sempre aconchego na minha própria casa. Em outros tempos, meu pai foi tropeiro, cortava poeira e fazia rota de comércio do sertão ao litoral.
Quando mais menino, ensaiei minhas primeiras andadas à moda dos tropeiros, montado em um cavalo. O posto era honroso, assistente de Vovô Augusto, meu primeiro grande amigo, meu primeiro professor de vida. Tempos depois, já mais aquilatado de corpo e arranhado de paixões, cortei estrada, de bicicleta, desse sertão até a beira-mar e vi de perto o quanto meu vale é rico, apesar da pobreza que se fez sinônimo da palavra Jequitinhonha. Agora olho essas pedras e penso em escalar uma por uma, só para ver o que elas sempre viram naquele horizonte do meu sertão. Hei de fazê-lo, mas hei de fazer isso apaixonadamente, amando a terra que piso, querendo aprender com as rochas a ser forte e longevo.
Às vezes penso que foram estas rochas que moldaram os homens da minha terra. Homens como meu pai e meu avô, fortes, firmes, impassíveis e, sempre, olhando o que virá no horizonte.
sexta-feira, julho 28, 2006
quinta-feira, maio 25, 2006
areia dos sonhos
quinta-feira, maio 04, 2006
Intimidade
(Fotografia de A.Brito)
terça-feira, abril 18, 2006
Ego trip
Viajando pelas veredas de mim mesmo encontrei, guardadas, certas coisas das quais sempre acreditei ter me livrado, por não gostar. Eram lembranças ruins, em que sofro.
E elas estavam guardadas em mim.
Descobri, na verdade, que nunca quisera perdê-las. Estranho apego ao insucesso, estranho culto ao desconforto.
Acomodei-as em memórias sempre visíveis e, por mais insólito que isso possa parecer, fiz, com elas, um ambiente para o qual fujo sempre que algo me assusta.
É como um quarto de misérias que construo quando deveria destruir.
Tentei ignorá-las, rir-me delas e lançá-las fora de vez, mas falhei no propósito. À medida que me desfazia, colhia-as de volta com o desespero de quem cata papéis ao vento.
Notei que não era involuntário, havia vontade minha ali, originada não sei de onde.
Surpreso com minha própria natureza, parei de tentar interferir e fiquei só contemplando toda a dimensão do enorme paradoxo que faz de mim o estranho ser que sou.
Estranho, ser esse ser. Ser esse ser humano estranho.
Humano, estranho ser.
Estranho ser humano, esse ser humano estranho que...
amo ser.
sexta-feira, abril 14, 2006
dimensão de nós
perdidos, ambos, num mesmo olhar.
Fugimos,
e fixamos morada num ponto onde todas as dimensões foram uma única coisa:
verdade.
A verdade de nossos corpos e almas, a verdade humana do amor e da carne,
aquela coisa única que só sentimos ali.
Sim, estivemos lá,
naquela concretude de tempo,
naquela incerteza de espaço,
naquela perfeição de tudo,
na nossa alcova.
No ponto onde estivemos, estivemos a sós e completos.
Tu e eu,
fartos,
plenos,
gratos,
completos de amor.
quarta-feira, abril 05, 2006
A Cidade
A urbe é viva.
Estranho este fenômeno de interação. A cidade devora a vida dos que vivem por ela e cresce, ganhando corpo e movimento, ganhando verbos e mais verbos no seu agir.
Nós, os humanos, temos este hábito: criamos coisas e nos tornamos parte delas.
Todos os dias, acordamos e encarnamos nosso papel no teatro urbano, alimentamos a inquietação coletiva que já nos é natural.
Somos todos uma única figura massiva no cotidiano. A cidade é exatamente isso, a soma dos indivíduos, dos sons, dos movimentos. A fusão das várias energias despendidas em uma única vida: a cidade.
Eis aí um bom paradoxo: A cidade é humana ou o homem é que é urbano?
O fato é que, indubitavelmente, ela “É”, e se apresenta como um gigantesco “Ser” que acorda cedo, tem pressa, trabalha, almoça, se afoba no trânsito, perde a paciência no “rush” e, passado o stress, deixa cair, vertiginosamente, o metabolismo, tornando-se plácida e familiar entre uma “novela-das-sete” e um Jornal Nacional.
Há quem diga também, que ela se enamora da lua e se prostitui nas bocas de noite. Que pode ser vista em bares, embriagada, buscando sedução e fazendo coisas proibidas. Que é ébria, boêmia, nostálgica e festiva nas madrugadas.
Pessoalmente, prefiro vê-la em um trechinho projetado minha janela. Nestas horas em que divido o céu com ela, contemplo-a maternal e cúmplice e ela me olha como em um desabafo, dizendo estar cansada e querer falar pouco, mas que aceita uma bebida, um sorriso e um afago antes de dormir.
sexta-feira, março 24, 2006
Nirvana
Estivemos, os dois, às margens do abismo. Induzidos, pela lógica hormonal de nossos corpos complementares, a saltar .
Estávamos na fronteira de nós mesmos, fuzilados pelo calor químico da pele, torturados pela ansiedade dos lábios, pela curiosidade tátil das mãos invasoras, carinhosas e atrevidas.
Ainda assim, à beira do salto, entre tantas coisas que poderia ter feito, decidi experimentar algo novo e te segurei assim, de perto.
Antes que os olhos se cerrassem e se perdesse a chance de uma loucura nova, decidi te olhar por dentro.
Percebi que toda a composição daquele instante despia nossas máscaras e revelava nossa essência, vazia de medos, rica em verdade.
Era preciso explorar o lapso de novidade que coube ali.
E contra toda a previsão e toda precaução que se deve ter nessas transições entre corpos e almas, viajamos juntos em nós mesmos descobrindo o quanto somos simples e a maravilha que isso representa.
Não sabia o quanto era mais forte essa sensação.
Navegamos um no outro desfeitos de qualquer ânsia e distantes de toda consciência. Nos sentimos mais que próximos, dentro.
Estivemos um no outro, visitamos a verdade que habita em nós.
Transcendemos o desejo, superamos tudo e ficamos ali, naquele transe de humanidade.
Abraçamos a alma um do outro e estivemos felizes com a descoberta. Jamais fomos tão longe, jamais estivemos tão unidos.
E foi à partir daí, desse ponto, que resolvemos partir, e da beirada do abismo que não saltamos, fomos arrebatados, mas, ao invés de cair, voamos.
E o que era puramente químico e orgânico, se tornou algo transcendente e místico e o que era prazer, virou nirvana.


